terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Não sei quantas almas tenho

          Não sei quantas almas tenho.
          Cada momento mudei.
          Continuamente me estranho.
          Nunca me vi nem acabei.
          De tanto ser, só tenho alma.
          Quem tem alma não tem calma.
          Quem vê é só o que vê,
          Quem sente não é quem é,
          Atento ao que sou e vejo,
          Torno-me eles e não eu.
          Cada meu sonho ou desejo
          É do que nasce e não meu.
          Sou minha própria paisagem;
          Assisto à minha passagem,
          Diverso, móbil e só,
          Não sei sentir-me onde estou.
          Por isso, alheio, vou lendo
          Como páginas, meu ser.
          O que segue não prevendo,
          O que passou a esquecer.
          Noto à margem do que li
          O que julguei que senti.
          Releio e digo : “Fui eu ?”
          Deus sabe, porque o escreveu.

 
        Fernando Pessoa

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A mão



Guerra e Paz - Exposição no Memorial da América Latina em São Paulo.

Entre o cafezal e o sonho

o garoto pinta uma estrela dourada

na parede da capela,  
e nada mais resiste à mão pintora.  
A mão cresce e pinta  
o que não é para ser pintado mas sofrido.  
A mão está sempre compondo  
módul-murmurando  
o que escapou à fadiga da Criação  
e revê ensaios de formas  
e corrige o oblíquo pelo aéreo  
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos  
A mão cresce mais e faz  
do mundo-como-se-repete o mundo que  telequeremos.  
A mão sabe a cor da cor  
e com ela veste o nu e o invisível.  
Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor  
Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja mágica  
não para aplacar a sede dos companheiros,   
principalmente para aguçá-la  
até o limite do sentimento da terra domícilio do homem.  
Entre o sonho e o cafezal  
entre guerra e paz  
entre mártires, ofendidos,   
músicos, jangadas, pandorgas,  
entre os roceiros mecanizados de Israel,  
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil  
entre o amor e o ofício  
eis que a mão decide:  
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,  
sejam vertiginosamente felizes   
como feliz é o retrato  
múltiplo verde-róseo em duas gerações  
da criança que balança como flor no cosmo   
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente   
em seu poder de encantação.  
Agora há uma verdade sem angústia  
mesmo no estar-angustiado.   
O que era dor é flor, conhecimento    
plástico do mundo.  
E por assim haver disposto o essencial,  
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,  
bruscamente se cala    
e voa para nunca-mais  
a mão infinita   
a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari.
Candido Portinari, por Carlos Drummond de Andrade. 


sábado, 18 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Sou livre para o silêncio...





"Sou livre para o silêncio das formas e das cores."

Manoel de Barros 






terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Todos querem o perfume das flores...




"Todos querem o perfume das flores, 
mas poucos sujam as suas mãos para cultivá-las."

Augusto Cury





quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Não gosto do transitório...




"Não gosto do transitório, do provisório. Gosto do Eterno …” 



João Guimarães Rosa





terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Demissão




Este mundo não presta, venha outro. 
Já por tempo de mais aqui andamos 
A fingir de razões suficientes. 
Sejamos cães do cão: sabemos tudo 
De morder os mais fracos, se mandamos, 
E de lamber as mãos, se dependentes. 


José Saramago


sábado, 4 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Tempo Será



A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo
E a palma da minha mão).

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.

Manuel Bandeira