sábado, 31 de agosto de 2013

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Canção de barco e de olvido


Não quero a negra desnuda.
Não quero o baú do morto.
Eu quero o mapa das nuvens
E um barco bem vagaroso.

Ai esquinas esquecidas...
Ai lampiões de fins de linha...
Quem me abana das antigas
Janelas de guilhotina?

Que eu vou passando e passando,
Como em busca de outros ares...
Sempre de barco passando,

Cantando os meus quintanares...
No mesmo instante olvidando
Tudo o de que te lembrares.
  

    Reedição da obra de Mario Quintana. Este volume reúne numa mesma edição os três primeiros livros do poeta Mario Quintana. A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946) e Sapato Florido (1948).
A RUA DOS CATAVENTOS; CANÇÕES; SAPATO FLORIDO
Ano de lançamento: 2012, Editora: Objetiva. 


sábado, 24 de agosto de 2013

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Alguns Haikais de Guilherme de Almeida


INFÂNCIA

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".

CIGARRA

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.

CONSOLO

A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.

 
                                                                        NOTURNO

                                                                    Na cidade, a lua:
                                                                a jóia branca que bóia
                                                                     na lama da rua.
                                                                        
                                                                        TRISTEZA

                                                                Por que estás assim,
                                                              violeta? Que borboleta
                                                                  morreu no jardim?

                                                                        JANEIRO

                                                                 Jasmineiro em flor.
                                                           Ciranda o luar na varanda.
                                                                    Cheiro de calor.

                                                                             FRIO

                                                                  Neblina? ou vidraça
                                                          que o quente alento da gente,
                                                               que olha a rua, embaça?

                                                                         NÓS DOIS

                                                                 Chão humilde. Então
                                                          risco-o a sombra de um vôo.
                                                               "Sou céu!" disse o chão.

        A INSÔNIA

         Furo a terro fria.
         No fundo, em baixo do mundo,
         trabalha-se: é dia.

         MOCIDADE

         Do beiral da casa
        (ó telhas novas, vermelhas!)
         vai-se embora uma asa.

        OUTONO

         Sistema nervoso,
         que eu vi, da folha sorvida
         pelo chão poroso.


                                                                                   

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Silêncio






" Só se sente nos ouvidos o próprio coração...
 Pois nós não fomos feitos
senão para o pequeno silêncio."
 
 Clarice Lispector

sábado, 17 de agosto de 2013

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Minha cidade



Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.
Cora Coralina
          



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Considerar a nossa maior angústia...

 


Considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas da nossa mesma alma, é o princípio da sabedoria.





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domingo, 11 de agosto de 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Aula de Inglês


—  Is this an elephant?

Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propõe um grave problema. Em vista disso, examinei com a maior atenção o objeto que ela me apresentava.

Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoa leviana poderia concluir às pressas que não se tratava de um elefante. Mas se tirarmos a tromba a um elefante, nem por isso deixa ele de ser um elefante; mesmo que morra em consequência da brutal operação, continua a ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, em princípio, tão elefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me de averiguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossas patas, como costumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco consegui descobrir o pequeno rabo que caracteriza o grande animal e que, às vezes, como já notei em um circo, ele costuma abanar com uma graça infantil.

Terminadas as minhas observações, voltei-me para a professora e disse convincentemente:

—  No, it's not!

Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demora de minha resposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente perguntou:

—  Is it a book?

Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro à primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras — sejam quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no máximo dois segundos:

—  No, it's not!

Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita — mas só por alguns segundos. Aquela mulher era um desses espíritos insaciáveis que estão sempre a se propor questões, e se debruçam com uma curiosidade aflita sobre a natureza das coisas.

—  Is it a handkerchief?

Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizer a verdade, não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fosse hipoteca... Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca? Handkerchief! Era uma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática; talvez fosse chefe de serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muito provavelmente, enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido:

—  No, it's not!

Minhas palavras soaram alto, com certa violência, pois me repugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nos meus arredores pudesse ser um handkerchief.

Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez, porém, a pergunta foi precedida de um certo olhar em que havia uma luz de malícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque de desafio. Sua voz era mais lenta que das outras vezes; não sou completamente ignorante em psicologia feminina, e antes dela abrir a boca eu já tinha a certeza de que se tratava de uma palavra decisiva.

—  Is it an ash-tray?

Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeiro lugar porque eu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Em segundo lugar porque, fitando o objeto que ela me apresentava, notei uma extraordinária semelhança entre ele e um ash-tray.  Era um objeto de louça de forma oval, com cerca de 13 centímetros de comprimento.

As bordas eram da altura aproximada de um centímetro, e nelas havia reentrâncias curvas — duas ou três — na parte superior. Na depressão central, uma espécie de bacia delimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço de cigarro fumado (uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de um palito de fósforos já riscado. Respondi:

—  Yes!

O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhora teve o rosto completamente iluminado por onda de alegria; os olhos brilhavam — vitória! vitória! — e um largo sorriso desabrochou rapidamente nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta.  Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir de estender o braço e me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muito excitada:

—  Very well!  Very well!

Sou um homem de natural tímido, e ainda mais no lidar com mulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória me perturbou; tive um susto, senti vergonha e muito orgulho.

Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja, alguns belos cachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o embaixador britânico, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:

  It's not an ash-tray!

E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eu sabia falar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixador ver que sua língua natal começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé do país junto a cujo governo é acreditado.

A crônica acima foi extraída do livro "Um pé de milho", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 33.


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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

...a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginávamos silêncios



 


 "...a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginávamos silêncios, e súbitos regressos quando pensávamos que não voltaríamos a encontrar-nos."
Do livro "A Viagem do Elefante" de José Saramago (Ed. Companhia das Letras, 2008.)





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