A chuva me irritava. Até que um dia descobri que maria é que chovia. A chuva era maria. E cada pingo de maria ensopava meu domingo. E meus olhos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava. Eu era todo barro, sem verdura... maria chuvosíssima criatura! Ela chovia em mim, em cada gesto, pensamento, desejo, sono e o resto. Era chuva fininha e chuva grossa, matinal e noturna, ativa... Nossa! Não me chovas, maria, mais que o justo chuvisco de momento, apenas susto. Não me inundes de teu líquido plasma, não sejas tão aquático fantasma! Eu lhe dizia em vão - pois que maria quanto mais eu rogava, mais chovia. E chuveirando atroz em meu caminho, o deixava banhado em triste vinho, que não aquece, pois água de chuva mosto é de cinza, não de boa uva. Chuvadeira maria, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha! Eu lhe gritava: Pára! E ela chovendo, poças d'água gelada ia tecendo. Choveu tanto maria em minha casa que a correnteza forte criou asa e um rio se formou, ou mar, não sei, sei apenas que nele me afundei. E quanto mais as ondas me lavavam, as fontes de maria mais chuvavam, de sorte que com pouco, e sem recurso, as coisas se lançaram no seu curso, e eis o mundo molhado e sovertido sob aquele sinistro e atro chuvido. Os seres mais estranhos se juntando na mesma aquosa pasta iam clamando contra essa chuva estúpida e mortal. catarata. (jamais houve outra igual). Anti-petendam cânticos se ouviram. Que nada! As cordas d'água mais deliram. e maria, torneira desatada, mais se dilata em sua chuvarada. Os navios soçobram. Continentes já submergem com todos os viventes, e maria chovendo. Eis que a essa altura, delida e fluida a humana enfibratura, e a terra não sofrendo tal chuvência, comoveu-se a Divina Providência, e Deus, piedoso e enérgico, bradou: Não chove mais maria! - e ela parou.