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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

terça-feira, 10 de junho de 2014

Quando os ventos de mudança sopram...


"Quando os ventos de mudança sopram,
 umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento."
 
Érico Veríssimo

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Dois e dois são quatro


 Como um tempo de alegria   
Por trás do terror me acena   
E a noite carrega o dia    
No seu colo de açucena
- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.




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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Traduzir-se



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

 


Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Rotina



“A ideia é a rotina do papel
O céu é a rotina do edifício
O início é a rotina do final
A escolha é a rotina do gosto
A rotina do espelho é o oposto
A rotina do jornal é o fato
A celebridade é a rotina do boato
A rotina da mão é o toque
A rotina da garganta é o rock
O coração é a rotina da batida
 




A rotina do equilíbrio é a medida 
O vento é a rotina do assobio
A rotina da pele é o arrepio
A rotina do perfume é a lembrança
O pé é a rotina da dança
Julieta é a rotina do queijo
A rotina da boca é o desejo
A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza
Toda rotina tem a sua beleza.”

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Minha cidade



Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.
Cora Coralina
          



terça-feira, 27 de março de 2012

Poema de outono




     Entonação de outono que se abate e tolhe
     Que em parte leva a alegria para outro destino
     E consigo traz um sentimento contido, pobre
 
     Deixando quase tudo muito estranho, sem sentido

     Sendo o outono longo e cinzento
     Relembrando o verão de momentos tão lindos
     Saudações das alegrias reavivadas na mente
     Servindo de motivação para continuarmos felizes

     Ainda que o outono traga a pecha da tristeza
     Que das árvores caiam as flores amarelas das acácias
     Transcorrendo para que o inverno se refaça
     Sempre existe a esperança que sol de novo resplandeça

     Sentimentos dispersos em versos também contidos
     Imagens efêmeras retidas na retina viram lendas
     Assim como em outros momentos não vividos
     Mas que de tão intensos se tornaram sonhos, poemas.


     Chico Córdula





quinta-feira, 22 de março de 2012

Plano



               Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
               que se despeja no copo da vida, até meio, como se
               o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
               como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
               boca. Pergunto onde está a transparência do
               vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
               de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
               são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
               da alma suja de restos, palavras espalhadas
               num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
               hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
               esperando que o tempo encha o copo até cima,
               para que o possa erguer à luz do teu corpo
               e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

            Nuno Júdice


terça-feira, 6 de março de 2012

Busque Amor novas artes, novo engenho



Busque Amor novas artes, novo engenho, 
para matar-me, e novas esquivanças; 
que não pode tirar-me as esperanças,
 
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
 
Vede que perigosas seguranças!
 
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
 
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
 
um não sei quê, que nasce não sei onde,
 
vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luís Vaz de Camões 



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A mão



Guerra e Paz - Exposição no Memorial da América Latina em São Paulo.

Entre o cafezal e o sonho

o garoto pinta uma estrela dourada

na parede da capela,  
e nada mais resiste à mão pintora.  
A mão cresce e pinta  
o que não é para ser pintado mas sofrido.  
A mão está sempre compondo  
módul-murmurando  
o que escapou à fadiga da Criação  
e revê ensaios de formas  
e corrige o oblíquo pelo aéreo  
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos  
A mão cresce mais e faz  
do mundo-como-se-repete o mundo que  telequeremos.  
A mão sabe a cor da cor  
e com ela veste o nu e o invisível.  
Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor  
Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja mágica  
não para aplacar a sede dos companheiros,   
principalmente para aguçá-la  
até o limite do sentimento da terra domícilio do homem.  
Entre o sonho e o cafezal  
entre guerra e paz  
entre mártires, ofendidos,   
músicos, jangadas, pandorgas,  
entre os roceiros mecanizados de Israel,  
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil  
entre o amor e o ofício  
eis que a mão decide:  
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,  
sejam vertiginosamente felizes   
como feliz é o retrato  
múltiplo verde-róseo em duas gerações  
da criança que balança como flor no cosmo   
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente   
em seu poder de encantação.  
Agora há uma verdade sem angústia  
mesmo no estar-angustiado.   
O que era dor é flor, conhecimento    
plástico do mundo.  
E por assim haver disposto o essencial,  
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,  
bruscamente se cala    
e voa para nunca-mais  
a mão infinita   
a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari.
Candido Portinari, por Carlos Drummond de Andrade. 


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Atraso pontual



Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?

Paulo Leminski 


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A fome do primeiro grito



Se te pareço nocturna e imperfeita
Olha-me de novo. 
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
desejasse.
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo.
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez
e mais atento.


Hilda Hilst