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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Desejo e Solidão



"Não existe nada mais triste, mais sem graça que a coisa realizada". Esta deve ser a grande angústia da idade avançada: mesmo tendo tido uma vida intensa e gloriosa, isso não basta. É preciso manter a ilusão pulsando, um alvo adiante, a perseguição contínua, para não sermos sepultados antes da hora. O desejo é um leão. Selvagem, carnívoro, brutal. Não permite acomodação. O do desejo não tem hora nem tem verbo, o desejo ruge, nosso corpo é sua jaula. Mas a gente se acomoda e anestesia o leão em nós. Resta a jaula vazia. Já nenhum risco nos ameaça, nenhuma surpresa nos aguarda. Uma desolação.
Martha Medeiros
Crônica Desejo e Solidão 
Livro Montanha Russa

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Grande qualidade de vida

 João Ubaldo Ribeiro

Antigamente, não havia qualidade de vida. Quer dizer, não se falava em qualidade de vida. Agora só se fala em qualidade de vida e, em matéria de qualidade de vida, sou um dos sujeitos mais ameaçados que conheço. Na verdade, me dizem que venho experimentando uma considerável melhora de qualidade de vida, mas tenho algumas dúvidas. Minha qualidade de vida, na minha modesta opinião pessoal, não tem melhorado essas coisas todas, com as providências que me fazem tomar e as violências que sou obrigado a cometer contra mim mesmo. Geralmente suporto bem conversas sobre qualidade de vida, mas tendo cada vez mais a retirar-me do círculo ou recinto onde me encontro, quando começam a falar nela.
A comida mesmo me faz estar considerando, no momento, comprar uma balança de precisão e um computador de bolso com um programa alimentar especial. Antes eu comia do que gostava. Fui criado, por exemplo, com comida frita na banha de porco ou, mais tarde, na gordura de coco. Meus avós, todos mortos depois dos 90 (com exceção do que só comia o saudabilíssimo azeite de oliva - e ele morreu de AVC), comiam banha de porco e torresmo regularmente, mas, claro, ainda não tinham sido informados de que se tratava de prática mortal. Aliás, comida saudável, que se ensinava nos manuais até para crianças, era composta de leite integral, ovos, pão (com manteiga), carne vermelha ou peixe - frito, então, era uma maravilha para estômagos delicados -, frutas e legumes à vontade.
Depois disso, até atingirmos a atual qualidade de vida, fulminaram o leite.
Alimento completo, passou a ser encarado com desconfiança e hoje não sei de ninguém que beba leite integral, a não ser, talvez, algum gorila do Zoológico. O ovo sofreu ataque violentíssimo, assim como o açúcar, a ponto de, tenho certeza, várias receitas tradicionais de doces serem hoje achados arqueológicos e as poucas que restam constituam uma imitação desenxabida das que empregavam ingredientes normais e não essas massas e líquidos insossos que vivem distribuindo como leite, manteiga, etc. Claro, mudaram de ideia a respeito do ovo recentemente, mas a mudança de idéias deles só pode ser vista com desconfiança.
Não houve o tempo, e não é preciso ser nenhum Matusalém para lembrar, em que, para substituir a manteiga era exigida margarina, alimento saudabilíssimo, que não fazia nenhuma das monstruosidades operadas pela manteiga? O negócio era margarina e durou bastante, até que descobriram que margarina pode ser até pior do que manteiga. Melhor, na verdade, abolir manteiga inteiramente. E margarina, claro, nem pensar. Carne vermelha é uma abominação. Carne de porco é um terror. Vísceras de qualquer tipo devem ser evitadas como o Diabo foge da cruz. Açúcar, meu Deus! Sorvete? Só para crianças, e crianças de pais irresponsáveis. Aliás, é um bom desafio achar algo unanimemente aprovado pelos nutricionistas, a não ser, tudo indica, capim.
Mas ninguém pode viver de capim, de maneira que, relutantemente, deixam a gente comer uma coisinha qualquer, contanto que não ultrapassemos o limite de calorias e não ingiramos o proibido e, mesmo assim, com restrições. Peixe cozido ou grelhado, por exemplo, geralmente pode, mas paira sobre seu infeliz consumidor a ameaça de que não esteja fresco ou esteja contaminado por metais pesados e pelo lixo que jogam em rios e mares. Peito de frango (e eu que sou homem de coxas e antecoxas) também assusta, por causa dos hormônios que dão às galinhas e as neuroses que elas desenvolvem, nascendo sem mãe e sendo criadas em cubículos em que mal podem se mexer, a ponto de terem de ser debicadas, para não se autodevorarem histericamente. Ou seja, mesmo comendo um peito de galinha sem uma gota de qualquer gordura e acompanhado somente por matos e alguns legumes (cuidado com a contaminação de tomates, cenouras e alfaces!), o infeliz se arrisca.
Mas vou usar o computador para calcular as calorias, as gorduras e outras características de cada refeição, porque, agora que minha qualidade de vida está melhorando a cada dia, preciso ser coerente. Fumar, não mais, nem uma pitadinha depois do café (que ninguém sabe direito se faz bem ou faz mal, temperado com adoçante, que também ninguém sabe se faz bem ou faz mal).
Beber, esqueça, vai deixar você demente aos 60, além de dar cirrose e hepatite. O famoso copinho de vinho, além de ser uma porção ridícula, também está sendo questionado no momento. Parece que não é bem assim, e uma autoridade no assunto disse outro dia no jornal que o melhor é tomar suco de uva - não industrializado, é claro, por causa dos aditivos.
Restam também os exercícios. Fico felicíssimo, quando, suando e bufando no calçadão, sinto o ar fresco invadir os meus pulmões (preferia logo uma tenda de oxigênio), as pernas doendo e a certeza de que minha qualidade de vida vai cada vez melhor. Até minha pressão arterial (13 a 14 por 8), que era considerada boa para minha idade, agora já é alta e o pessoal dos 12 por 8 já começa a entrar na faixa de risco. Enfim, é duro manter esta boa qualidade de vida, ainda mais agora que me anunciam que caminhadas somente não bastam, tem de malhar também. Ou seja, temos que nos dedicar o tempo todo a manter nossa qualidade de vida. Mas, aqui entre nós, se vocês no futuro virem um gordão tomando caldinho de feijão com torresmo no boteco, depois de um chopinho e o acharem vagamente parecido comigo, talvez seja eu mesmo, sofrendo de uma pavorosa qualidade de vida. A diferença é grande.
Tanto eu quanto vocês vamos morrer do mesmo jeito, mas vocês, depois da excelente qualidade de vida que estão desfrutando aí com sua rúcula com suco de brócolis, vão ter uma ótima qualidade de morte, falecendo em perfeita saúde e eu lá, no meu velório, com um sorriso obeso e contente no rosto dissoluto.

O Globo (Rio de Janeiro - RJ) em 06/07/2003
        

terça-feira, 29 de abril de 2014

O olhar adulto



Foi ele mesmo que me contou, como confissão de cegueira, dando depois permissão para que eu relatasse o milagre desde que não revelasse o santo. Médico, chegou a seu consultório com seus olhos perfeitos e a cabeça cheia de pensamentos. Eram pensamentos graves, cirurgias, hospitais, e os doentes o aguardavam na sala de espera.
Entrou o primeiro paciente que se submeteu mansamente à apalpação médica. Terminada a consulta, escrita a receita, no ato da despedida ele fez um elogio: “Doutor, que lindas são as orquídeas na sua sala de espera!”
Meu amigo sorriu embaraçado, com vergonha de dizer que não havia notado orquídea alguma na sala de espera e que, portanto, não sabia da beleza que o doente notara. Teve vergonha de revelar a sua cegueira. Entrou o segundo paciente. Ao final da consulta, sem conseguir conter o que sentia, observou: “São maravilhosas as orquídeas na sua sala de espera, doutor!” Novamente o sorriso amarelo, sem poder dizer o que não sabia sobre as orquídeas que não havia visto.
Veio o terceiro paciente e a coisa se repetiu do mesmo jeito. Aí o doutor deu uma desculpa, saiu da sala, e foi ver as orquídeas que o jardineiro colocara na sala de espera. Eram, de fato, lindas. Mas aí veio o agravante, pois o paciente, não satisfeito com a humilhação imposta ao doutor cego, observou que, na semana anterior, a árvore dentro da sala de consulta, plantada num vaso imenso, num canto, não era a mesma que ali estava, naquele dia. Mas o doutor cego de olhos perfeitos não notara a presença de árvore naquele dia nem a presença da árvore na semana anterior...
Ah! Você espera que tal cegueira possa existir! Mas eu lhe garanto que é assim que funcionam os olhos dos adultos em geral.
Lá vão pelo caminho a mãe e a criança, que vai sendo arrastada pelo braço – segurar pelo braço é mais eficiente que segurar pela mão. Vão os dois pelo mesmo caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Blake dizia que a árvore que o tolo vê não é a mesma árvore que o sábio vê. Pois eu digo que o caminho por que a mãe anda não é o mesmo caminho por que anda a criança.
Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa, para cima, para baixo, para os lados, é uma casca de cigarra num tronco de árvore, quer parar para pegar, a mãe lhe dá um puxão, a criança continua, logo adiante vê o curiosíssimo espetáculo de dois cachorros num estranho brinquedo, um cavalgando o outro, quer que a mãe também veja, com certeza ela vai achar divertido, mas ela, ao invés de rir, fica brava e dá um puxão mais forte, aí a criança vê uma mosca azul flutuando inexplicavelmente no ar, que coisa mais estranha, que cor mais bonita, tenta pegar a mosca, mas ela foge, seus olhos batem então numa amêndoa no chão e a criança vira jogador de futebol, vai chutando a amêndoa, depois é uma vagem seca de flamboyant pedindo pra ser chacoalhada, assim vai a criança, à procura dos que moram em todos os caminhos, que divertido é andar, pena que a mãe não saiba andar por não ter os olhos que saibam brincar, ela tem é muita pressa, é preciso chegar, há coisas urgentes a fazer, seu pensamento está nas obrigações de dona de casa, por isso vai dando safanões nervosos na criança, se ela conseguisse ver e brincar com os brinquedos que moram no caminho, ela não precisaria fazer análise...
A mãe caminha com passos resolutos, adultos, de quem sabe o que quer, olhando pra frente e para o chão. Olhando para o chão ela procura as pedras no meio do caminho, não por amor a Drummond, mas para não dar topadas, e procura também as poças d’água, não porque tenha se comovido com o lindo desenho do Escher de nome Poça D’água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu azul e os ramos verdes dos pinheiros, ela procura as poças para não sujar o sapato. A pedra do Drummond e a poça de água suja do Escher os adultos não vêem, só as crianças e os artistas...
A mãe não nasceu assim. Pequenina, seus olhos eram iguais aos do filho que ela arrasta agora. Eram olhos vagabundos, brincalhões, que olhavam as coisas para brincar com elas. As coisas vistas são gostosas, para ser brincadas. E é por isso que os nenezinhos têm esse estranho costume de botar na boca tudo o que vêem, dizendo que tudo é gostoso, tudo é para ser comido, tudo é para ser colocado dentro do corpo. O que os olhos desejam, realmente, é comer o que vêem. Assim dizia Neruda, que confessava ser capaz de comer as montanhas e beber os mares. Os olhos nascem brincalhões e vagabundos – vêem pelo puro prazer de ver, coisa que, vez por outra, aparece ainda nos adultos no prazer de ver figuras. Mas aí a mãe foi sendo educada, numa caminhada igual a essa, sua mãe também a arrastava pelo braço e, quando ela tropeçava numa pedra ou pisava numa poça d’água, porque seus olhos estavam vagabundeando por moscas azuis e cachorros sem-vergonha, sua mãe lhe dava um safanão e dizia: “Olha pra frente, menina!”
“Olha pra frente!” Assim são os olhos adultos. Olhos não são brinquedos, são limpa-trilhos. Servem para abrir caminhos na direção do que se deve fazer. Assim eram os olhos daquela minha amiga que os usava para cortar cebola sem cortar o dedo, até que, um dia, o olho que morava dentro dos seus olhos se abriu e ela viu a beleza maravilhosa do vitral translúcido que mora nas rodelas de todas as cebolas, e ela tanto se espantou com o que via que pensou que estava ficando louca.
Coitados dos adultos. Arrancam os olhos vagabundos e brincalhões de crianças e os substituem por olhos ferramentas de trabalho, limpa-trilhos. Asssim eram os olhos daquele meu amigo médico: não viam nem as orquídeas nem as árvores que estavam dentro do seu consultório. Seus olhos eram escravos do dever. E ele não percebia que as coisas ao seu redor eram brinquedos que pediam aos seus olhos: “Brinquem comigo! É tão divertido! Se vocês brincarem comigo, eu ficarei feliz, e vocês ficarão felizes...”
Rubem Alves


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Eu era mudo e só

A perplexidade do moço diante de certas considerações tão ingênuas, a mesma perplexidade que um dia senti. Depois, com o passar do tempo, a metamorfose na maquinazinha social azeitada pelo hábito de rir sem vontade, de falar sem vontade, de chorar sem vontade, de falar sem vontade, de fazer amor sem vontade... O homem adaptável, ideal. Quanto mais for se apoltronando, mais há de convir aos outros, tão cômodo, tão portátil. Comunicação total, mimetismo: entra numa sala azul, fica azul, numa vermelha vermelho. Um dia se olha no espelho, de que cor eu sou? Tarde demais para sair pela porta afora.
Trecho de  "Eu era mudo e só" (Conto da obra Antes do Baile Verde), de Lygia Fagundes Telles

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Doze dezembros




Chega dezembro e as festas pululam de todo canto. Tem festa de fim de ano da firma. Amigo oculto da turma da faculdade. A ceia com a família. O jantar beneficente. Os convites chegam em atacado. Provavelmente muito mais do que se estivéssemos, por exemplo, em maio. A impressão que tenho é a de que apenas em dezembro - quando existe a expectativa do fim e também do recomeço - é que temos consciência da finitude da vida. Aquela sensação de "já é natal de novo?" nos cutuca e nos faz cair na real sobre como o tempo está escapando pelas nossas mãos. Muito provavelmente não é por isso, mas acho que é um bom motivo para justificar a grande farra que vira dezembro. Outro dia alguém comentou no Twitter que a impressão que se tem é a de que o que vai acabar não é o ano, mas, sim, o mundo. E é bem isso mesmo. Gastamos o que não podemos. Anuciamos para aqueles que amamos o quanto eles nos são caros. Fazemos festas todos os dias. Mandamos toda e qualquer dieta para as cucuias. Afinal de contas, é tempo de aproveitar. Por que? Porque o ano vai acabar, oras! Mas logo vem outro ano, e, sabe-se lá porquê, entramos no modo monotonia outra vez. Economizando, sabe-se lá porquê. Camuflando nossos sentimentos, sabe-se lá porquê. Ficando em casa, sabe-se lá porquê. Deixando de apreciar comidas, engordativas sim, mas antes de tudo maravilhosas, sabe-se lá porquê. Enfim, sobrevivemos onze meses para viver em dezembro. A sexta-feira dos meses. Sabe o que eu quero para 2012? Doze dezembros e nada mais.
Fernanda Pinho 


terça-feira, 17 de maio de 2011

O milagre

R28829. Anúncio miúdo publicado num jornal: "A Nossa Senhora, a quem recorri em momentos de aflição na madrugada de 11 de maio, agradeço de joelhos a graça alcançada." Uma assinatura de mulher. Em seguida vinha o 29766, em que se ofereciam lotes de um terreno, em prestações módicas. Esse não me causou nenhuma impressão, mas o 28829 sensibilizou-me.

A princípio achei estranho que alguém manifestasse gratidão à divindade num anúncio, que talvez Nossa Senhora nem tenha lido, mas logo me convenci de que não tinha razão. Com certeza essa alma, justamente inquieta numa noite de apuros, teria andado melhor se houvesse produzido uma Salve-Rainha, por exemplo. Infelizmente nem todos os devotos são capazes de produzir Salve-Rainhas.

Afinal essas coisas só têm valor quando se publicam. A senhora a que me refiro podia ter ido à igreja e enviado ao céu uma composição redigida por outra pessoa. Isto, porém, não a satisfaria. Trata-se duma necessidade urgente de expor um sentimento forte, sentimento que, em conformidade com o intelecto do seu portador, assume a forma de oração artística ou de anúncio. Há aí uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão. Meios bem modestos, com efeito, mas essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência e não se atreve a comunicar-se com a Virgem: fala a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos, e confessa a eles o seu agradecimento a Nossa Senhora, que lhe concedeu um favor em hora de aperto.

Imagino o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa quina da mesa de cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. A fuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala inexistente zunir-lhe perto da orelha. Arrastando-se, quase desmaiada, foi refugiar-se no banheiro. E aí pensou no marido (ou no filho), que se achava fora de casa, na Urca ou em lugar pior. Desejou com desespero que não acontecesse uma desgraça à família. Encostou-se à pia, esmorecida, medrosa da escuridão, tencionando vagamente formular um pedido e comprimir o botão do comutador. Incapaz de pedir qualquer coisa, arriou, caiu ajoelhada e escorou-se à banheira. Depois lembrou-se de Nossa Senhora. Passou ali uma parte da noite, tremendo. Como os rumores externos diminuíssem, ergueu-se, voltou para o quarto, estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada.

Não dormiu, e de manhã viu no espelho uma cara envelhecida e amarela. O filho (ou marido) entrou em casa inteiro, e não foi incomodado pela polícia.

A alma torturada roncou um suspiro de alívio, molhou o jornal com lágrimas e começou a perceber que tinha aparecido ali uma espécie de milagre. Pequeno, é certo, bem inferior aos antigos, mas enfim digno de figurar entre os anúncios do jornal que ali estava amarrotado e molhado.

Realmente muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma graça: com certeza escaparam por outros motivos.

GRACILIANO RAMOS. Texto extraído do livro “As cem melhores crônicas brasileiras”,  seleção de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada pela Editora Objetiva em 2007.


terça-feira, 5 de abril de 2011

Declaração universal dos direitos da mulher com TPM

Preâmbulo

Considerando as alterações hormonais que afetam as mulheres durante os dias que precedem o período menstrual, e seus consequentes transtornos psicológicos e sentimentais, fica estabelecido que:

ARTIGO I

Toda mulher em dias de TPM tem direito a comer uma caixa de bombons inteira (não ouse se aproximar da caixa) e a tomar leite condensado direto na lata. E que isso não implique em alterações na balança.

ARTIGO II

Toda mulher em dias de TPM tem direito à preferência no trânsito; a encontrar todos os sinais abertos; a receber passagem dos outros motoristas; a encontrar vagas sem que haja necessidade de baliza; e a não ouvir nenhuma buzina — salvo em casos de buzina utilizada como ferramenta de paquera.

ARTIGO III

Toda mulher em dias de TPM tem direito a deitar a cabeça no colo da mãe e chorar de medo de qualquer coisa. Exatamente como fazia aos cinco anos de idade e acordava com pesadelos.

ARTIGO IV

Toda mulher em dias de TPM tem direito a recusar ligações de clientes insuportáveis; a chorar na frente do chefe, caso seja repreendida; a manter-se muda durante as reuniões; podendo, em casos mais graves, até receber o dia de folga. Sem que isso interfira no seu futuro profissional.

ARTIGO V

Toda mulher em dias de TPM tem direito a dizer que está gorda; que está cheia de fios brancos; que o cabelo está um desastre; que sua pele está um lixo; que suas celulites de multiplicaram como Gremlins. Desde que NINGUÉM concorde com ela.

ARTIGO VI

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de se abster da obrigação de dizer "bom dia", "bom tarde", "boa noite", “por favor”, “com licença”, sem ser taxada de grosseira e mal-educada.

ARTIGO VII

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de esquecer: esquecer o aniversário de um parente, esquecer de pagar uma conta, esquecer de ir ao dentista, esquecer de enviar um orçamento, e outras coisas que agora esqueci (estou no meu direito).

ARTIGO VIII

Toda mulher em dias de TPM tem direito a estourar o limite do cartão de crédito comprando sapatos que não fazem seu estilo, roupas que só usaria se fosse convidada para uma festa brega, bolsas que custam uma fortuna, embora não acomodem nem um celular. E que nada disso conste na fatura do mês seguinte.

ARTIGO IX

Toda mulher em dias de TPM tem direito a reclamar com o namorado de qualquer coisa da qual já tenha reclamado um milhão de vezes; a chorar por causa dele; a chorar no telefone com ele; a não atender as ligações dele; e até a terminar com ele. Desde que, passado o período, ele finja que nada disso aconteceu.

ARTIGO X

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de fazer com a sua TPM o que bem entender: um dramalhão mexicano, uma tragédia grega, uma comédia pastelão, uma crônica, que seja. Desde que isso lhe renda elogios, para que não fique traumatizada e inibida de escrever para todo o sempre.

Fernanda Pinho
 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Gentileza


“Eu aprendi que ser gentil é mais importante do que estar certo” – Shakespeare

Fico pensando em como deve estar desgostoso o senhor José Datrino, lá do céu. Ele, que ficou famoso como Profeta Gentileza e foi o propagador da filosofia "gentileza gera gentileza" ,deve estar tendo dificuldade em encontrar os frutos das sementes que plantou. Porque, gente, reconheçamos, ser gentil está mais démodé do que usar pochette.


E eu, graças a Deus, estou por fora, pois acho gentileza o máximo. Não abro mão de desejar feliz aniversário a ninguém - e levo tão a sério que sei de cor as datas de aniversário de todas as pessoas das minhas relações; faço o impossível para comparecer sempre que me convidam (e se não posso ir, nunca deixo de me justificar); não deixo ninguém esperando; não saio discordando só para causar polêmica; respeito os horários dos outros; não deixo ninguém mudar de planos por minha causa; sempre falo "bom dia", "boa tarde", "boa noite" e "muito obrigada" (faço questão do "muito"); só me recuso a fazer um favor para alguém se realmente não estiver ao meu alcance (e nesse caso eu tento indicar quem possa fazer); sempre retorno as ligações; sempre respondo aos e-mails; e jamais me dirijo a alguém adotando um tom autoritário. E aí você pode estar pensando: "vantagem nenhuma, você não faz mais que sua obrigação". Exatamente, eu também acho. Isso é o básico, o arroz com feijão que sustenta esse detalhe que faz toda a diferença para que tenhamos uma vida melhor: a gentileza. E o que me desespera é perceber que nem do arroz com feijão as pessoas estão dando conta. As pessoas querem estar certas, querem mostrar o quanto são poderosas, o quanto são inteligentes. As pessoas querem cumprir metas, mostrar o quanto são competentes, o quanto são esforçadas. As pessoas querem ficar ricas, mostrar o quanto são espertas, o quanto são melhores que os outros. E quanto a ser gentil? As pessoas não se preocupam com isso ou, sendo otimista, se esqueceram desse detalhe - nem foi por mal - devido à falta de tempo.


E quando falo "as pessoas", me incluo também já que, embora eu faça meu arroz com feijão, vivo mordendo a isca dos sem-educação e grosseiros de todos os tipos. Não raramente me vejo gastando energia num embate com alguém que tenha me tratado sem o mínimo de gentileza. O que ganho com isso? Nada. Apenas a frustração por não ter conseguido ser gentil, mesmo com aquela pessoa que não merecia. Porque o que eu entendo é que a gentileza que gera gentileza é aquela indiscriminada. É ser gentil sem olhar a quem. Do resto, a vida se encarrega.


Como aconteceu com meu pai, há cerca de dois anos. Numa madrugada de chuva torrencial, indo de carro de Belo Horizonte a Juiz de Fora, ele parou na estrada ao ver uma ambulância estacionada no acostamento. Perguntou ao motorista o que estava acontecendo e este lhe explicou que o veículo tinha estragado, ele precisava seguir viagem e não sabia o que fazer. Meu pai, então, desceu do carro. Deu uma olhada no motor da ambulância e, como viu que não poderia fazer nada, levou o motorista até a cidade onde ele deveria chegar e o ajudou a encontrar um mecânico que pudesse voltar com eles até a ambulância. Três meses depois, passando pela mesma estrada, meu pai sofreu um acidente gravíssimo. Foi levado para a Santa Casa de uma cidade próxima e, devido ao estado em que se encontrava, só poderia ser transferido para um hospital em Belo Horizonte de ambulância. Porém, de acordo com as normas esdrúxulas da Santa Casa em questão, uma ambulância deveria se deslocar de BH até a tal cidade para buscá-lo. Possibilidade inviável, logicamente. A viagem demora cerca de duas horas e meia, o que significa que levaria, no mínimo, cinco horas para que meu pai fosse atendido num hospital daqui. E assim teria sido se um motorista da Santa Casa não tivesse entrado no ambulatório e visto meu pai na maca. Tratava-se exatamente do mesmo motorista que meu pai havia socorrido meses antes. Ele peitou seu próprio chefe e todo o hospital. "Esse cara me ajudou um dia e eu vou levá-lo agora, e de qualquer jeito", ele disse. E trouxe.


Meu pai ficou um mês internado mas sobreviveu porque foi atendido a tempo pelo melhor hospital que temos em Belo Horizonte. O que poderia não ter acontecido se, naquela madrugada chuvosa, ele não tivesse marcado a resposta certa no teste que a vida lhe aplicou. Desde então, fiquei mais vigilante às respostas que eu dou aos testes que a vida me aplica e sei que só existe uma resposta certa: gentileza.

 Fernanda Pinho



quinta-feira, 15 de julho de 2010

Alice no País das Ervilhas



Resumo

19h 30min
Preparo o jantar de sanduíche de cogumelos, bom e barato que a crise aperta. Numa panela refogo cebola até dourar um pouco. Junto cogumelos e tomates e refogo mais uns minutos sem deixar o tomate desmanchar e tempero com sal. Numa tigela bato levemente uma clara de ovo e incorporo-a com creme de leite. Adiciono a mistura ao refogado e misturo rapidamente até incorporar, e está feito. Salsinha e parmesão não há, mas que se lixe. Abro o pão, atiro a mistela lá para dentro junto com uma folha de alface, e NHAC !!!!!

20h 00min
Já jantado sento-me no sofá e ligo a TV. Noticiários estão a começar.

21h 00min
Sou atacado por um sono irresistível... ou os cogumelos estavam estragados, ou o teor repetitivo dos noticiários induzia a uma torpeza mental.
Os olhos vão-se fechando e vou abandonando o duro estado da (ir)realidade actual.
Tenho um sonho, tenho vários sonhos desconexamente ligados.
Sonhei que o Príncipe Carlos me estava a pedir em casamento. Fujo a sete pés que o gajo além de aborrecido tem mau hálito e embrenho-me num denso bosque. Caio num vazio, num enorme buraco negro, dentro do qual aos vários Espaços perceptíveis em coordenadas xyz é adicionada à coordenada Tempo. A limitação dos sentidos humanos é incrível e nem sequer sabemos se o que eles nos enviam é real. O desenvolvimento de universos mentais adquire uma força e clareza bem maiores, e certamente uma maior fidelidade. A pluri-quadrimensionalidade torna-se um universo limpo em comparação com as bi ou tridimensionalidades do nosso quotidiano. Fico na dúvida se estou a cair, a subir, ou se estou estático e tudo gira... mas será que interessa? O movimento relativo a um eixo é determinante, ou um factor mínimo comparado com toda a dinâmica do(s) universo(s)?
Aterro num rectângulo verde, pés na Terra, e a súbita condição humana faz-me sentir confortável. Reconheço o espaço, o tempo continua difuso, as situações entrechocam-se entre duras realidades e irrealidades possíveis. Estou em Portugal. Isto aqui é Portugal ?!?!

Tenho um vestido azul e sinto-me Alice no País das Ervilhas.

Sonhei que Portugal tinha ganho o Campeonato do Mundo de Futebol, com uma revolucionária táctica TMFD (Tudo ao Molho e Fé em Deus), sendo o guarda redes Eduardo Mãos de Tesoura, o melhor marcador da competição. Maior relevo merece a proeza, já que o seleccionador apenas levou 11 jogadores como medida de contenção de despesas. A Federação fretou vários charters, onde para além dos dirigentes se deslocaram à África do Sul vários árbitros e alguns empresários, no sentido de divulgar a Ervilha como Produto Nacional Certificado a conquistar assim novos mercados. Mais tarde a comitiva foi recebida em apoteose por uma vasta multidão que incluía El -Rei D. Sebastião, regressado expressamente de Marrocos numa manhã de cinzas vulcânicas.

OW Sapo !!! Não vale a pena estares a mandar beijos que eu sei que és o Príncipe Carlos disfarçado... rapa do meu sonho e vai coaxar lá pra PQP.

Sonhei que a Democracia não era uma dança aleatória de bolinhas de sabão, jogada aos 7 ventos por um qualquer bobo da corte.

Supondo que o Universo é mutável no domínio do tempo, deve haver razões físicas para que realmente houvesse um começo, e se não existia nada antes, o que fez com que o desequilíbrio da singularidade criasse um Universo caótico e em mutação? ...@&*#~... esperem aí Einstein, Gamow e companhia que já tenho confusão que chegue no meu sonho...

09h 01min
TRIMMM... TRIMMMM....
Sou acordado abruptamente pelo som da campainha da porta.
Era um sujeito mau encarado, orelhudo e com cara de sapo. Ainda pensei que era o Príncipe Carlos revivido do sonho, mas não... era um Fiscal do recém super Ministério das Finanças e Controle Interno.
O chip instalado no meu cérebro, peça Constituinte do Cartão de Cidadão e orgulho da tecnologia lusa, tinha detectado anomalias nocturnas e como tal estava sujeito às novas taxas aprovadas na véspera.
Da factura constava:
IRS (Imposto Retaliador de Sonhos) - 150 €
IVA (Imposto de Visão Acrescentada) - 125 €
ID (Imposto de Dormir) - 100 €
IDV (Imposto do Direito de Viver) - 100 €
VALOR TOTAL: 475 € (exactamente igual ao meu Salário Mínimo Nacional)
Fazer o quê?
Abri a porta do frigorífico e peguei na última lata de ervilhas que havia. O dia estava bonito e inspirei o ar puro matinal... ainda é grátis. No quintal um sapo coaxou... e a lata de ervilhas voou :)

MORAL DA HISTÓRIA: comer cogumelos à noite é indigesto... prefira a Ervilha Nacional e "lá vamos, cantando e rindo..."

Assim vai o país...

JET



terça-feira, 1 de junho de 2010

Imagine só...

Depois de um longo tempo vivendo dentro de mim, resolvi sair para passear.

Primeiro, dei de cara com as coisas que nunca soube decifrar. Fiquei olhando, não apenas atenta, mas boquiaberta com a variedade de interpretações sobre o mesmo tema. Percebi que uns sabiam a vida como um caleidoscópio e dele usufruíam as cores, vivendo numa felicidade enfeitada, onde se aglomeravam falseadas levezas, mas que desempenhavam bem o seu papel de amansadoras de inquietações.

Adoro as canções que nos engolem. Às vezes é somente uma pausa assoprada na melodia ou um tom irriquieto instigado pela harmonia desabrochando aquele aperto no peito, o sorriso pasmado de quem foi pego no pulo e não soube fazer mais do que rir de si para si.

Eu não sei compor canções, mas virei expert em redigir obituários, dando à morte dos meus sonhos um ar de cinema noir e garantindo algumas ressuscitações.

Eu sorrio à toa para os fogos de artifícios.

Eu elaboro silêncios.

Eu construo fantasmas.

Eu tenho medo das coisas que têm medo de me pertencer ou me receber: donas do meu destino, faceirinhas, arrogantes.

Sou temerária das faltas. As de minha autoria e daquelas que outros me impõem.

Não pense que sou prato raso, poça e não rio. Tenho meus momentos de vagabundagem, de preguiça de sair adiante ou mesmo refletir sobre antes.

Há dias em que não saio do lugar.

Há anos eu não saio do lugar.

E que lugar é esse que não me alforria com movimento?

Eu sei... Mania essa de colocar a culpa no tempo que passou rápido demais, no cenário que não favoreceu, nos planos que na prática não se mostraram nada funcionas. Na roupa que serviu errado, no cabelo despenteado por causa do vento, nas cerimônias que empanturraram nosso calendário, e nas chances que se perderam, quando na verdade, nós é que estávamos distraídos com a construção do buraco imenso que cavamos na própria alma, essa habilidade digna de quem teme a vida, a mesma que lhe sopra na boca o alimento, enquanto juramos ela nos matar de fome.

Ah...esse medo da maternidade das nossas almas, da origem do nosso fracasso, sem permissão alguma de assumir que de lá também vem as nossas conquistas.
Eu conquisto olhares e então os catalogo na retina. Meu álbum de intensidades me vira do avesso, vez ou outra. E não importa a cor, ainda que o azul elabore poesias secretas.

Faço de conta...como faço de conta! Sou andarilha do poema esquecido na gaveta, empoeirando ao lado do corpo inerte e desembestada imaginação.

Imagine só... Só, mas sem solidão.

Carla Dias

terça-feira, 11 de maio de 2010

Rimas, abraços e curativos

Dia de luz, festa de sol, e o barquinho a deslizar, Copacabana, céu e mar. Sol quente, areia quente, água fria, vou entrar. Tá cheio de criança no mar, que m'importa se eu não sei nadar?

E na cadência da pobre rima fui andando e corrompendo a obra de Bôscoli e Menescal, água na canela e precaução, tudo é paz, tudo é verão.

Dois passos à minha frente, uma senhora, cabelo vermelho nas pontas, braços estendidos para o mar e uma voz solene:

Vem meu filho, vem me dar um abraço! - se não falava com as pessoas a sua volta, também não se importava que ouvissem.

É o Rio de Janeiro: quando tudo está bom, alguma coisa tem de acontecer ou o tédio se instala. E aconteceu aquela invocação. Trocaram-se olhares, risinhos, alguns gargalharam, outros apontaram o cabelo vermelho, e assim estabeleceu-se a cumplicidade entre desocupados à procura de uma vítima. Dei mais alguns passos e me senti pertencendo à malta. Ria, enquanto pensava, e cometia novas rimas, se era ecologia, religião, filosofia, lirismo ou psiquiatria, o que levava alguém a convidar Netuno para um abraço.

Não pensei por muito tempo. A onda explodiu no meu peito e eu caí sentado. Com o susto, inspirei com força e a água entrou pelos sete buracos da minha cabeça, como diria Caetano. Era o começo das dores. A areia embaixo de mim começou a fugir e eu fui atrás dela, arrastado por outras camadas que também se moviam para o fundo. Pela fricção percebi que já não havia mais o tecido de proteção, entre mim e o chão e, pela ardência, imaginei a água se tingindo de vermelho. Como a areia, a água também voltou para o fundo e me descobriu a cabeça. Mas não durou muito.

Outra onda me atingiu e eu me senti numa lavadora. Batia a cabeça, às vezes o pé, o ombro se arrastava e subia, e agora eram as costas, e eu girando, sem saber se eu já estava no fundo do Atlântico ou a poucos metros do calçadão. Estiquei braços e pernas tentando encontrar o chão. Mas onde estava o chão?

O chão ia continuar desaparecido ou surgindo em forma de lixa por muito tempo. Muitas sacudiduras depois, muitos litros de água salgada no estômago e quem sabe no pulmão, o mar se cansou e devolveu seu brinquedinho à areia. Outras ondas ainda me alcançaram, mas me permitiram ficar lá, de bruços, guinchando para respirar. A água foi generosa, pois se afastou a lycra para melhor se esfregar no chão, ela própria se encarregou de recolocá-la quase no lugar. Esse quase provocou risos e piadas, mas evitou linchamento por ato obsceno.

Divertiram-se as pessoas, depois foram cuidar de suas vidas porque nem estabacado na praia eu merecia toda essa atenção. Com a dignidade que me restava, tentando encobrir uma escoriação mais ridícula, puxei para cima a lycra cheia de areia, e fui para casa.

Até hoje não sei se irritei o mar, a bossa-nova, ou os dois. Isso aconteceu há alguns anos e tenho voltado regularmente à praia. Nessas ocasiões, estendo os braços, confiro se alguém não está me observando e repito discretamente:

- Vem, meu filho, vem me dar um abraço.

Pode ser que não tenha nada a ver, mas como fazem Chico e Vinícius, "eu, que não creio, peço a Deus por minha gente".

E a verdade é que,
depois desse cuidado,
ainda peco pela rima,
mas nunca mais
morri afogado.


Albir José da Silva

terça-feira, 16 de março de 2010

Depois é que é

"O bom macarrão não precisa ser ruim para quem lava a panela"
(Albir José da Silva)

O que me chamou a atenção pela primeira vez foi um simples - e até saboroso - macarrão.

Eu estava passando um final de semana com uns dez colegas da escola numa casa da praia.

Tinha dezessete anos e não sabia cozinhar um ovo. Propuseram que eu lavasse panelas e pratos. Achei justo. Eu só não esperava que o fundo da panela de macarrão viesse com uma crosta queimada de aproximadamente um dedo de expessura. Nos longos minutos daquela minha lavagem, eu decidi que aprenderia a cozinhar e que deixaria trabalhosos fundos de panela para os outros lavarem. Mas, passada a raiva, desisti da vingança e apenas coloquei em minha cabeça que sempre comeria, cozinharia ou faria qualquer outra coisa pensando no trabalho que aquilo daria não apenas durante, mas também depois.

Foi numa salinha do Theatro José de Alencar que aprendi que havia um nome para aquilo: pós produção. Foi dez anos depois do episódio do macarrão, e eu já nem me lembrava mais no meu propósito de pensar sempre no depois. Eu era um jovem sonhador, fazendo "quatrocentos mil projetos que jamais são alcançados." Eu queria fazer coisas - que quase nunca davam certo - e tinha que me preocupar, antes de mais nada, em viabilizar minhas ideias. O que fazer com o resultado delas ainda não era uma questão para mim. Mas quando a professora explicou o que era pós-produção, me voltou tudo à mente: todo o depois.

Os ditados populares sabem das coisas: "quem não pode com o pote não pegue na rodilha", "ajoelhou tem que rezar". O depois vem cobrar seu preço, não há nada sem consequencias. Sonhar e realizar é maravilhoso, mas depois é que é...

Tem também uma historiazinha zen em que o discípulo, ao final do jantar, pergunta ao mestre o que fazer para atingir a iluminação. O mestre pergunta: "Já terminou de comer?" O discípulo diz que sim. E o mestre complementa: "Então vá lavar o prato". Uma irônica bordoada de pós-produção.

Foi então que decidi ter uma vida simples - por vezes saborosa. Passei a evitar qualquer coisa que desse mais trabalho depois do que antes ou durante. Isso incluía crostas em panelas, manchas no chão e nos lençóis, imprevistos de viagens, juros de empréstimos, desvarios em paixões e qualquer coisa que terminasse com aquela frase batida do grilo falante interior: Agora aguente.

Com o tempo, meu grilo falante se converteu, ele mesmo, num monge budista em votos de silêncio. Não lhe dou mais motivos para tagarelar, afinal, "é melhor prevenir do que remediar." Ando leve, minha pisada quase sem rastros. Não entro de chinelas no banheiro para não misturar pó com água e ter de lavar o chão mais de uma vez por semana. Faço ovos cozidos para não enfrentar a gordura de uma frigideira. Guardo palavras ferozes e amargas para depois não ter de me arrepender e pedir desculpas por as haver dito.

Sei que tudo isso talvez esteja muito errado, que o certo talvez seja lambuzar-se, sujar-se, errar, ferir. Que o medo do depois pode anular o antes e, principalmente, o agora. Que temos mesmo é de lidar com nossas crostas, enfrentando-as com valentia. Que a tentativa de manter-se a salvo só pode resultar em isolamento, em manias, em idiossincrasias , numa pálida imagem das grandes potencialidades do ser humano. Pode ser, pode ser...

Pode ser que essa paz que eu desejo e busco, esse sabor que eu provo nas pequenas coisas simples, limpas e sem novidade, essa leveza que eu carrego sem que me pese coisa alguma, pode ser que tudo isso seja ilusão e que a realidade seja mesmo essa coisa atroz, voraz, de gritos, de luta, de estresse e de cansaço.

Confesso ser inacapaz de ser outra coisa nesse momento. Sou escravo de pensar que aquilo que eu sujo eu devo estar preparado para lavar, que aquilo que escolho deve estar preparado para aguentar, que aquilo que digo devo estar pereparado para assumir, e que, se outra pessoa o faz por mim, trata-se de uma gentileza, que eu jamais deveria tomar por outra coisa que não circunstancial, temporária, algo a ser agradecido, mas não repetido, muito menos esperado.

Hoje sei fazer meu próprio macarrão, até para duas ou três pessoas. E se alguém, agradecido, se oferecer para lavar a panela, resolverá tudo em dois ou três minutos sem esforço. Sei que é pouco, quase nada. Que há gente por aí fazendo coisas mais dignas e importantes: salvando vidas, construindo prédios. Que minha vida direcionada a um depois de baixo impacto é uma brincadeira de criança diante das questões dramáticas da humanidade. Não sou daqueles que vão se meter em destroços de inundações, terremotos e epidemias. Não sou o herói, não sou nem mesmo o homem, o humano.

Vida pequena é a minha. Vida de quem não mais acumula, mas se desfaz. Vida de quem vai chegando ao fim do ciclo e sabe que o resultado tem que ser zero, que não deve haver saldo, positivo ou negativo. Vida de quem pouco sonha porque pouco dorme. Vida de velho quase bebê. Vida sem dívida para pagar depois.

Eduardo Loureiro Jr.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Papo mole beira-mar


Jorginho é taxista legítimo: folgado, cabeleira branca e barriga farta, boa praça, poliglota, puxa conversa até com surdo-mudo e conta histórias clássicas do cotidiano do Rio. Lábia afiada leva, na maciota do banco traseiro, a fauna e a flora carioca.

Trabalha de segunda a domingo e de sol a sol. Ano novo entra em recesso. Encosta o amarelo na garagem do apartamento da mãe na Praça do Lido para passar a virada com a família; bem longe da lei-seca. No festão de 2009/2010 Jorginho manteve a carteira de motorista no bolso da bermuda só para não se sentir pelado e, quase na hora dos fogos, decorou os chinelos com areia e sentou de frente ao mar para levar aquele papo cabeça com Iemanjá. Negociou as posturas para o ano que prometia a saúde dos seus e as boas corridas, reclamou – de leve – das intempéries pessoais, do síndico, do trânsito, dos preços, todos loucos do ano moribundo. Empolgado, cobrou mais ação da Rainha do Mar diante de tanta bagaceira ocorrendo no mundo. A Senhora pode fazer melhor, incentivou. Súdito assumido, não querendo ser desrespeitoso, mas firme, comentou com a Soberana que 2009 foi muito quente, o mar esteve indócil boa parte do ano e na outra fedendo a merda. Alguns peixes sumiram das redes, pinguins argentinos bateram nestes costados e plantas, aparentemente extraterrestres, invadiram as praias. Majestade, a Senhora não pode deixar essas coisas por isso mesmo, se não vira bagunça. Sei, sei – contemporizou – têm certas coisas que cansam, principalmente depois de certa idade e com tanto trabalho e concorrência terrena. Mas os seus filhos estão aqui na praia pedindo perdão, graça e força. Não é hora de amarelar. E por falar nisso, ando preocupado com Vossa Excelência. Assisti a um filme sinistro em que daqui a dois anos a Digníssima Majestade pira geral, chuta o balde e faz a maior bagunça com o planeta. Não deixa pedra sobre pedra, derruba até a concorrência do alto do Corcovado. Querida, antes que cheguemos a esse ponto vamos relaxar, pensar positivo, sabe? Nós estamos nos esforçando, por favor, não desista destes filhos inconsequentes. Ofereça-nos a oportunidade de sair da adolescência e - quem sabe? – consertar nossos erros.

Veio uma onda hostil pegando Jorginho em cheio. O taxista levantou todo molhado, mas não perdeu a compostura e soltou mais uma: Perdão, Mãe, eu estava só pensando alto. É uma mania minha, força do ofício. Mas se quiser pensar um pouco no assunto, este humilde servo se curva.

Fogos estouram, garrafas viram, gritos e urras. Antes do fim da queima de fogos, raios dividem os céus com a pólvora. Uma tempestade torrencial cai sobre os súditos esvaziando o tapete branco de Copacabana. Os que insistem em ficar, seja pelo poder da fé ou do álcool, são finalmente afugentados por ondas que apagam velas e enterram Cidras. Jorginho vê todo aquele alvoroço e pensa com seus chinelos: Eu e minha boca grande...

Texto e arte: Catarina Cunha

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Que bicho eu sou?

assorted animals Pictures, Images and Photos


"Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos.
Só por não poderem ser chatos como os outros?"


Mário Quintana

Chego atrasado à reunião. Entro, a passos constrangidos, na sala. Estão reunidos num grande círculo. Meu atraso é obviamente percebido. A contragosto, cumprimento todos, com um vago bom-dia, e me sento. Então falam de quê? Um sujeito, barba e cabelos grisalhos, compara-se a um macaco. Antes que eu possa ordenar as ideias, os olhos da reunião voltam-se ameaçadoramente pra mim, perguntando que bicho eu sou.

Não achei muito elegante a pergunta. Isso lá é coisa que se pergunte assim, à primeira vista, a um honrado desconhecido? Balbuciei defesas, e a moça, que se proclamou facilitadora, não facilitou muito as coisas:

— Todos nós temos um animal oculto. Com qual você se identifica?

Pego de surpresa, não quis me comprometer. Disparei cachorro, bicho neutro, sem conexões freudianas perigosas (acho), nem lá nem cá, nem rei da selva nem fresco que nem o tamanduá.

Escolhas feitas, a facilitadora, conhecedora dos mistérios da alma humana, completou:

— Agora vem a parte mais importante. Cada um de vocês vai estar representando, aqui na frente, o animal escolhido.

Ai... Arrependimento. Nunca lati, nem nas mais secretas fantasias sexuais. E latido é coisa séria porque, se sair fraco, desafinado, compromete a honra do cidadão honesto. Tem que ser um latidão, forte e decidido. Sinceramente, eu não estava com vontade de latir, quanto mais em público. Ai, meu Deus, por que não escolhi o bicho-preguiça, tão simpático, tão na dele, alheio ao mal-estar mundial?

Eu quis mudar, mas a dona não deixou. Disse que isso ia ao encontro das regras. Pensei em ponderar que então não haveria problema, mas desisti.

Fiz uma piada, dizendo que era um cão mudo, mas ninguém riu. A situação piorou visivelmente. Latir depois de uma piada fracassada é suprema humilhação. Pensei em simular um desmaio, mas, naquela altura, ficaria falso, acho.

Entre o latido e o desmaio, fiquei com o primeiro, e lati sem convicção. Qualquer vira-lata de bom coração, se me visse naquela ocasião, haveria de se solidarizar comigo, com meu latido vagabundo.

Voltei, com o rabo entre as pernas, pra cadeira, feito cão sem dono.

Minha vida de cão triste não demorou muito, pois a facilitadora atacou:

— Agora vocês vão estar me dizendo o que passou pela cabeça de vocês. Só assim descobrimos o verdadeiro eu.

Ela, tão engraçada, quis começar comigo, a facilitadora do inferno. Ah!, me esquece... Vai procurar javali, vai namorar elefante, que diabo! Essas coisas, eu só pensei. Disse, na verdade, outra. Falei que foi uma experiência única. Que coisa espantosa!, exclamei. Me conectei com camadas submersas do ser. Ao latir, senti aflorar meu lado selvagem, deixei vir à tona capas de agressividade reprimidas no disfarce do dia-a-dia. Porque a sociedade...

Ah, os olhos dela brilharam de satisfação:

— Sim, sim, é isso mesmo, é isso aí!

Ah, sou outro, reconheço. Obrigado, obrigado. Que Deus guarde, em bom lugar, as facilitadoras, facilitando-lhes o caminho. Para bem longe, quem sabe...

Felipe B. Netto

sábado, 24 de outubro de 2009

Quem manda ser romântica?

Essa é em defesa dos românticos:

Se você ainda chora ou pelo menos se comove com certas canções, se você ainda olha, com carinho, para coisas obsoletas como a lua cheia, se você, ao conhecer certos locais incríveis, ainda pensa que irá lá um dia com seu amor, sinto muito, mas eu devo avisar: você está no século errado.

Século errado?! É, século errado. Peça o seu de volta, acho que se enganaram. Você é romântica, isso não se faz mais. Ninguém entende, é como falar chinês no Mineirão, vão olhar para você com perplexidade, talvez com pena.

Os séculos, minha amiga, mudam de ideia, mudam de roupa. O romantismo é uma roupa que não cabe mais. Fica apertada, a perna aparece, ou então fica lamentavelmente larga, grande, excessiva. Aliás, faz tempo que é assim. Lamartine Babo, compositor que trouxe a música brasileira de volta ao caminho da simplicidade, era um romântico incorrigível. Depois de receber cartas inteligentes e bem escritas de uma jovem de Boa Esperança chamada Vera, tomou um ônibus para ir conhecê-la, embora ela tenha dito que o encontro pessoal não seria possível. Chegando na cidade, ninguém quis dizer nada sobre a identidade da garota, embora todos rissem misteriosamente ao desconversar. Disposto a desvendar o segredo, Lamartine se dispôs a conversar com a menos sedutora das moças presentes. Ela, então, revelou-lhe o segredo: a inteligente autora das cartas, por quem Lamartine estava apaixonado, era o irmão dela, professor de Latim.

Pior: toda a cidade sabia do caso, e se divertia às custas dele. O tal professor chegava a ler em público, no clube da cidade, as respostas enternecidas de Lamartine. Nem por isso o genial compositor perdeu o bom humor, censurando-se apenas: "Bem feito, Lamartine! Quem mandou ser romântico?"

O melhor é ser duro, seco, impassível. Nem faça cara feia, leitora, a culpa não é minha, é do século. Faça como aquele colunista sentimental do jornal. Conhece a história? Foi assim. Uma mulher, desesperada porque encontrou o marido com outra, escreveu para a coluna sentimental do jornal. O problema é que a coluna era escrita por um homem. Ela escreveu dizendo: "Pelo amor de Deus, me ajude! Estava indo para o trabalho quando meu carro, sem nenhum motivo, deixou de funcionar. Peguei um táxi e voltei para casa. Encontrei, perplexa, meu marido na nossa cama com uma aluna dele, de vinte anos. Por favor, me ajude!"

Resposta do colunista: "Deve ter sido falta de combustível ou a injeção eletrônica. Procure um mecânico."

Felipe P. Braga Netto

sábado, 17 de outubro de 2009

Os maravilhosos domingos de Constantina

Todo domingo tem feira de artesanato e chorinho na Praça São Salvador.
É muito colorido e alegre. Nunca para Constantina que cultiva críticas ao belo como se fosse um vaso de espinho raro.
Caipirinhas com frutas exóticas, crianças correndo aos berros, velhos jogando dama nas mesas de granito, pula-pula, pipoca, fotografias antigas, livros raros, bolsas bordadas e tudo o mais muito caprichado.
Com toda essa felicidade latente, Constantina sai de seus aposentos, também todo domingo, só para implicar. Sem um centavo se quer na bolsa, pergunta preço só para reclamar que está caríssimo para camelô que nem paga imposto. Estranha um objeto, ao saber se tratar de uma luminária diz ser a coisa mais feia que vira em sua longa vida. Abre caminho entre as pessoas à bengaladas resmungando que ninguém mais respeita idoso. Manda o chorinho tocar Ataulfo Alves e não aquela porcaria. Xinga as crianças de mal-educadas porque os pais ficam enchendo a cara em vez de domar aqueles monstrinhos. Abana fumante fingindo falta de ar, vê bolor em empada fresca e mosca em água-de-coco. Feita a rota oficial do mau-humor, escolhe sua vítima solitária. De preferência que esteja com um sorriso idiota na cara.
Começa falando do tempo. Muito calor. Dorme mal. Se a vítima reagir observando que o céu está lindo é porque vai chover. Ilustra com a constatação de que, com esse tempo maluco, morre muita gente de gripe de porco, de galinha, de gente e até de mosquito. Sem contar que a violência está aí. Ontem mesmo mataram um menino com um tiro na testa. O mundo está perdido. E não adianta disfarçar com essa gente toda na praça e nenhum carro de polícia. A qualquer momento vem uma bala perdida e puf, acabou. Se eu fosse você não ficava com esse celular dando mole. Aqui é muito perigoso. Hoje em dia está todo mundo assim, doente. E por falar nisso, rapaz, você parece meio abatido. Já vai? É isso mesmo, vá para casa que é mais seguro e tome um copo de leite quentinho.
Triunfante, Constantina olha para o céu e comenta entre os dentes: Eu falei... vai chover, e muito!

Texto e arte: Catarina Cunha