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quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A flor e a fonte

“Deixa-me, fonte!” Dizia
A flor tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
cantava levando a flor.

“Deixa-me, deixa-me fonte!”
Dizia a flor a chorar:
“Eu fui nascida no monte...
Não me leves para o mar.”

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

“Ai, balanços do meu galho,
Balanços do berço meu;
“Ai, claras gotas de orvalho
Caídas do azul do céu!...”

Chorava a flor, e gemia
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria,
Rolava levando a flor.

“Adeus, sombra das ramadas,
Cantigas do rouxinol,
“Ai, festas das madrugadas,
Doçuras do pôr-do-sol;

“Carícia das brisas leves
Que abrem rasgões de luar...
“Fonte, fonte, não me leves,
Não me leves para o mar!...”

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor.

Vicente de Carvalho


segunda-feira, 21 de julho de 2008

Velho tema

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
(Vicente de Carvalho)