terça-feira, 8 de julho de 2008

O padeiro

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

- Não é ninguém, é o padeiro!
Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?
"Então você não é ninguém?"
Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...
Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.
Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; "não é ninguém, é o padeiro!"
E assobiava pelas escadas.
(por Rubem Braga)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Navegue, descubra tesouros


Navegue, descubra tesouros,
mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela,
mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, deixe-se acariciar por ele,
mas lembre-se que o seu calor é para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe,
pois elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda a parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos,
não pode molhar só o seu.
As lágrimas? Não as seque, elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.
O sorriso! Esse você deve segurar,
não o deixe ir embora, agarre-o!
Quem você ama?
Guarde dentro de um porta jóias, tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui, a mais valiosa.
Não importa se a estação do ano muda,
se o século vira e se o milênio é outro, se a idade aumenta;
conserve a vontade de viver, não se chega a parte alguma sem ela.
Abra todas as janelas que encontrar e as portas também.
Persiga um sonho, mas não o deixe viver sozinho.
Alimente a sua alma com amor, cure as suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades,
mas não enlouqueça por elas.
Procure, sempre o fim de uma história, seja ela qual for.
Dê um sorriso a quem se esqueceu como se faz.
Acelere seus pensamentos, mas não permita que eles o consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de si.
Abasteça o seu coração de fé, não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo,
só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.
Procure os seus caminhos, mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Alague o seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-as.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
(Fernando Pessoa)


sábado, 5 de julho de 2008

Devaneios

O estudo das enfermidades mentais, objeto da psiquiatria, é assunto muito complexo.

Só com muitos anos de pesquisa e dedicação se poderia discorrer seriamente sobre o tema.

Partindo da premissa, porém, de que "de médico e de louco todo mundo tem um pouco", o objeto deste documento é discutir as semelhanças e diferenças entre os quatro tipos básicos de cidadão: os doidos, os loucos, os birutas e os malucos.

Essa investigação baseou-se em minuciosa análise dos comportamentos do indivíduo; em outras palavras, na mania (obcecação resultante de desejo imoderado) de ficar reparando no povo.

A participação, ainda que involuntária, de maridos, mulheres, casais de namorados, adolescentes, mães, bêbados e políticos foi de enorme importância para a elaboração deste modesto ensaio.

A questão aqui trata da diagnose das esquisitices dos seres humanos normais, sem a intenção de criticar, justificar, teorizar ou se solidarizar com os exemplos citados.

Também não é nosso objetivo apontar soluções, ofender ninguém nem enlouquecer ainda mais as criaturas. Restringimo-nos a organizar resumidamente a nossa espécie.

1 – O louco.

Indivíduo capaz de cometer loucuras como adentrar a casa da namorada/namorado às 4 da manhã cantando Roberto Carlos, desafiar assaltos e engarrafamentos para comprar determinado tipo de torta de limão que só se encontra do outro lado da cidade, acreditar que seu pedido será realizado se o próximo carro que passar for vermelho, mesmo que esse pedido seja um aumento de salário. A mente dos loucos funciona loucamente sem parar – um pensamento puxa outro, que puxa outro, que puxa outro –, tornando-se difícil manter uma linha lógica de raciocínio, o que é que eu estava dizendo mesmo? Ah, eu estava falando dos loucos, agora vou passar para os malucos.

2 – O maluco.

Tipo de louco com fortes inclinações para artes plásticas, filosofia, teatro, física nuclear e delírios de qualquer natureza. Maluco geralmente gosta de bar, de fumaça, de incenso, de pôr-do-sol, de localizar as Três Marias no cinturão da constelação de Órion, de questionar, por exemplo, "Se a levada do bongô fosse tum-tum-tum, em vez de tum, não dava um som mais maneiro?" ou "Já pensou se o dia andasse pra trás, pra começar de noite e terminar de manhãzinha?", e de jogar conversa fora, qualquer uma serve, só para passar o tempo, sem nem perceber que está tomando o tempo dos outros com besteira, opa, percebi.

3 – O doido.

Como o doido geralmente está doidinho, torna-se fácil identificá-lo. Existem doidos para casar, doidos para separar, doidos para que chegue logo a sexta-feira, doidos por futebol, por internet, por sexo, por sucesso, por aspargos ou por qualquer coisa pela qual eles possam ficar doidos. É comum o portador da doidice não conseguir identificar por que está doido, o que provoca enorme ansiedade e faz o pobre do doido ficar doido para arranjar um motivo qualquer para ficar doido sossegado.

4 – O biruta.

Birutas apresentam variados impulsos de caráter lúdico, tais como: atravessar a rua dançando mambo, imitar um urubu-rei em cima do telhado, fingir que é guarda de trânsito, provocar tropeções, passar trotes, dar sustos, amarrar o rabo do gato ou fazer verso.
Foram constatados ainda vários casos de associações.
Existem loucos malucos. Ou malucos muito doidos. Ou doidos meio birutas. Ou birutas, completamente loucos, que ficaram irremediavelmente doidos por qualquer maluquice. Esse é o caso daqueles que prometeram escrever uma crônica e não conseguiram.
(por Adriana Falcão)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Por não estarem distraídos - Clarice Lispector

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

No restaurante

- Quero lasanha.

Aquele anteprojeto de mulher - quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia - entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.

O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.

- Meu bem, venha cá.

- Quero lasanha.

- Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa.

- Não, já escolhi. Lasanha.

Que parada - lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:

- Vou querer lasanha.

- Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.

- Gosto, mas quero lasanha.

- Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?

- Quero lasanha, papai. Não quero camarão.

Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?

- Você come camarão e eu como lasanha.

O garçom aproximou-se e ela foi logo instruindo:

- Quero uma lasanha.

O pai corrigiu:

Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada.

A coisinha amuou. Então não podia querer. Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:

- Moço, tem lasanha?

- Perfeitamente, senhorita.

O pai, no contra-ataque:

O senhor providenciou a fritada?

- Já, sim, doutor.

De camarões bem grandes?

- Daqueles legais, doutor.

- Bem, então me vê um chinite, e pra ela...O que é que quer, meu anjo?

- Uma lasanha.

- Traz um suco de laranja pra ela.

Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.

- Estava uma coisa, hem? - comentou o pai, com um sorriso bem alimentado - Sábado que vem, a gente repete...Combinado?

- Agora a lasanha, não é, papai?

- Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais. Mas você vai comer mesmo?

- Eu e você, tá?

- Meu amor, eu...

Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.

O pai abaixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.
(Carlos Drummond de Andrade)




quarta-feira, 2 de julho de 2008

O lago mudo

Contemplo o lago mudo

Que uma brisa estremece.

Não sei se penso em tudo

Ou se tudo me esquece.


O lago nada me diz,

Não sinto a brisa mexê-lo

Não sei se sou feliz

Nem se desejo sê-lo.


Trêmulos vincos risonhos

Na água adormecida.

Por que fiz eu dos sonhos

A minha única vida?

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Equilíbrio

Tirou os pés do chão e abraçou as pernas junto ao corpo, sentada na cadeira de balanço.
Não sairia dali. Ficou a balançar, olhar sem ver.
Mundo facilitado aquele do sem pés no chão.
Se dali não saísse não precisaria ir ou vir, ou nem mesmo decidir se iria.
Cansaço tomou conta.
Lembrou-se de momentos e das crateras que se abriram quando palavras sacudiram tudo. Abraçou os joelhos com mais força.
Em auto-abraço equilibrou-se na cadeira como podia.
E chorou.
Como poderia entender o porquê?
Gritou o grito interno.
E ali ficou, abraçando-se pelos joelhos.