terça-feira, 15 de julho de 2008

O velho e a flor


Por céus e mares eu andei,
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber
O que é o amor.
Ninguém sabia me dizer,
Eu já queria até morrer
Quando um velhinho
Com uma flor assim falou:
O amor é o carinho,
É o espinho que não se vê em cada flor.
É a vida quando
Chega sangrando aberta
em pétalas de amor.
(Vinícius de Moraes)


segunda-feira, 14 de julho de 2008

Visita à casa paterna

Como a ave que volta ao ninho antigo
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei: Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno
Tomou-me as mãos, - olhou-me – grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta a sala...(Oh, se me lembro! E quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto

Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.


(Luís Guimarães Júnior)


sábado, 12 de julho de 2008

É necessário...

"É necessário ter o caos cá dentro
para gerar uma estrela..."

Friedrich Nietzsche


Desabafos de um bom marido - Luis Fernando Veríssimo

Minha esposa e eu temos o segredo pra fazer um casamento durar: duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante, com uma comida gostosa, uma boa bebida, e um bom companheirismo. Ela vai às terças-feiras, e eu às quintas.

Nós também dormimos em camas separadas. A dela é em Fortaleza e a minha em São Paulo. Eu levo minha esposa a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta. Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento. “Em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!” ela disse. Então eu sugeri a cozinha.

Nós sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras. Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica. Então ela disse: “Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar”. Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.

Lembrem-se, o casamento é a causa número um para o divórcio. Estatisticamente, 100 % dos divórcios começam com o casamento. Eu me casei com a “Sra. Certa”. Só não sabia que o primeiro nome dela era “Sempre”.

Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la. Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha. Ela perguntou: “O que tem na TV?” E eu disse “Poeira”.

No começo Deus criou o mundo e descansou. Então, Ele criou o homem e descansou. Depois, criou a mulher. Desde então, nem Deus, nem o homem, nem Mundo tiveram mais descanso.

Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes: o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim.

Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer. Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa. Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dentes e lhe entreguei. “- Quando você terminar de cortar a grama”, eu disse, “você pode também varrer a calçada.”

Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida. O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido…

Incrível!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Aquarela poética

Meus lapsos de pensamentos...
Na mente a se juntar...
Transbordam em sentimentos...
E querem em papel rimar...

Procuro uma folha qualquer...
Aquarela para pintar...
Em palavras de mulher...
As cores do verbo amar.

As decepções do dia-a-dia...
Paixões...Sonhos...Esperanças...
As mãos levam ao papel nostalgia...
A mente sem vigilância.

De tudo que vem à mente...
O lápis borda no papel...
Expondo o coração da gente...
Tomando forma de cordel.

É como válvula de escape...
Por em palavras, quimeras...
Tramando e formando enlaces...
Nas cores da Aquarela.

(por Marilene Mees Pretti)


quinta-feira, 10 de julho de 2008

Eu guardo em mim

Eu guardo em mim
dois corações

um que é do mar

um das paixões
um canto doce
um cheiro de temporal
eu guardo em mim
um deus, um louco, um santo
um bem e um mal

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A viagem

Corre pela rua, sem saber bem se é uma fuga ou se é sua salvação. Nos pés, um par de sandálias, nas mãos, uma maleta com algumas roupas, nos olhos límpidos e profundos, lágrimas e vontade de olhar para trás.

Mas não há mais volta, agora que o caminho é outro. O jeito é seguir em frente, lutando contra o medo do desconhecido que insiste em aparecer.

A cabeça, dando mil voltas, não consegue sequer estruturar os pensamentos em frases, eles correm mais que ela. Ela se sente só.

Com o mundo inteiro à sua volta, seu coração se sente só. Ela é uma fortaleza esperando uma batalha que quebre suas enormes paredes de pedra.

Mas parece que nunca vai c h e g a r . . .

Ela correcorrecorre... e cansa. Os pés doem, os olhos ardem, o corpo não consegue mais manter-se em pé.

Senta sobre a mala e olha para o horizonte: o sol se põe, mas não é um belo entardecer; é angustiante: só dá a ela a incômoda medida de que ela está viva e vazia. Desiste.

Quando o cansaço invade a alma, é hora de parar.