quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A palavra dita

A palavra dita, dizem por aí, tem um poder daqueles. Já me aconselharam a não dizer as palavras como se elas fossem gangorras num parquinho, porque há uma seriedade pungente na palavra dita. Não dá pra tripudiar com ela, não!

A palavra dita brinca de pular amarelinha em abismos, por isso, melhor mesmo é dizer amor numa combinação inspirada de adjetivos bem docinhos, que é para não azedar a palavra que sai bailando com a voz.

A palavra na boca pode amargar mais do que se escrita em carta de despedida, por exemplo. Se quiser dar uma palavra dita de presente, por favor, esmere-se em saber se a palavra tem cabimento. Sugiro que a deixe ecoar, várias vezes, na sua cachola, antes de botar a boca no trombone.

A palavra dita benquerença vem sempre acompanha de fôlego para superar situações difíceis.

Quando dita, a palavra fome provoca um barulho bem alto no estômago e um buraco daqueles na alma. É um esvaziamento... Por isso, às vezes a gente fica mudo, sentado na sala, as luzes apagadas, e quase desaparece.

Palavra dita tem força pra atrapalhar as idéias da gente, basta ser inesperada e sincera. A palavra dita sincera tem perfume de arco-íris desembocando no lago, onde pessoas colocam suas esperanças de aprender a nadar e chegar a algum lugar onde faça sentido quem se é.

Não sou da palavra dita... Não sei entoá-la ao gosto do meu coração. Na verdade, estou na fase em que começo a dizer, mas emudeço. Então, faço uma careta, deixo pra lá, quem sabe mais tarde que tarde não há de chegar.

A palavra dita tristeza compõe sonatas com as lágrimas da gente.

Ando mais preguiçosa do que nunca para dizer a palavra, mas acho que é medo de gastar saliva e dizer palavra que ninguém está a fim de ouvir. E a palavra dita, quando ignorada, fica dolente de um jeito miúdo; e não dá pra saber por que dói e nem curar. Ela fica lá, batucando mágoas, plantada num jardim de inseguranças.

A palavra dita noite pode garantir um amanhecer tão alegre quanto é a cara do girassol.

Poderia dizer a palavra, mas teria de ser da que evapora... Uma palavra que ficasse no ar pra sempre como fosse lembrança. A palavra fragrância, ofertório. Gosto de engolir a palavra que, se dita, desampara o sonho do outro.

Queria dizer a palavra lamento, mas sem lamentar tê-la dito. Que ela fosse a porta aberta, fim da distância entre mim e os outros; que tivesse o poder de atrair, não de forjar solidões. E que provocasse alvoroço, desarrumação, inquietudes dignas de recomeços.

A palavra morte carrega com ela pontos finais e vestidos pretos.

A palavra dita tem passado, presente e futuro. Quando conjugada aos verbos, sai berrando necessidades. Mas acontece de outra palavra dita lhe fazer companhia e amansar suas urgências.

Palavra dita fragmentada é aquela que diz mais do que reza o dicionário.

Aos pares, a palavra dita fica mais feliz e dá a luz a frases. Dia desses, uma frase dessas coube direitinho dentro do momento e soprou um sorriso no olhar do moço triste de carteirinha. Ele não soube de onde veio, mas agarrou uma gargalhada num abraço e rabiscou um poema no ar.

A palavra sossego dá sono quando dita na beirada do fim da tarde de inverno.

Carla Dias

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Quando nasci...

"Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim"

Chico Buarque


terça-feira, 16 de setembro de 2008

A rua dos cataventos

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando.

Mário Quintana

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Bordados de mim

Sou assim...
Prosa e poesia
canto e lamento
alegria e solidão

rosa nascida na pedra
ave de asas cortadas
vulcão que ainda fumega
chuva em pleno verão

Sou assim...
Metáfora bordada
nos versos do poema
que o tempo não apaga

Sou, enfim,
bordados de mim.
Ariadna Garibaldi

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A medida da vida

A gente sabe quando chegou a hora, quando não dá mais. No meu caso, é quando as meias se acumulam dentro dos sapatos. Sinal de que estou passando tempo demais fora de casa, sem tempo nem para lavar as meias enquanto tomo banho.

É nessa hora que a gente percebe que não fala com os pais há dias, que não liga para as pessoas queridas, que perdeu o enredo da vida dos amigos e, pior de tudo, que se extraviou de si mesmo.

Casa é o lugar onde a gente se encontra, onde a gente encontra tudo: a tesoura, o orégano, o livro. Casa é onde a gente anda de olhos fechados, de luz apagada. Casa é a cama sempre desfeita, sempre pronta para um descanso de costelas. Casa é o violão à mão, o tempo à inspiração.

Na falta da casa que é essa, pode-se brincar de casinha no meio do mundo — desde que haja silêncio. Se nós, humanos, praticássemos suficientemente o silêncio, chegaríamos, mais século, menos século, à telepatia. O silêncio é uma casa sem paredes.

As meias dentro do sapato fazem barulho. As cuecas sujas, irritadas, fazem barulho também. A mochila ainda não desfeita entra no desarranjo sonoro. O chuveiro elétrico grita friamente por um novo. Aquela canção incompleta, o vídeo não editado, o mapa astral não interpretado, o livro não revisado, o texto não escrito, o macarrão não cozinhado... tudo faz um barulho tremendo. Até o sono, atrasado, vira pesadelo.

A água transborda do copo desatento. A medida de todas as coisas perde a colherzinha certa. As coisas esquecem o tão necessário antes e depois, e viram coisa atrás de coisa que não se sabe como começou nem para onde foi. As coisas ficam sem história e viram manchetes —sensacionalistas — de jornal.

Dá vontade de virar bicho-do-mato. Porque diante de tanta coisa, de tanto ruído, ser bicho-do-mato é ser mais gente do que meia no sapato.

Eduardo Loureiro Jr.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Mergulho


Abro saídas na mata fechada
- densa floresta, rotas marcadas -
sol poente,
a inevitável escuridão que assusta.
Busco na meia-luz a claridade.
Tateio o véu indevassável
- labirinto obtuso -
ferimentos da alma dilacerada.
Cambaleio na margem
que se abriu na tormenta.
Lembro a pureza da nascente,
a esperança que me acompanhava.
Lavo o rosto amargurado e frio
nessa água pura, cristalina.
Perderam-se nas profundezas do rio
os reveses que sufocaram minha vida.


Flávio Villa-Lobos

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Como a lua

I
Olho a lua enquanto dormes...
Ela me assanha;
projetando luz em teus cabelos e;
indo em frente,
vai de teu semblante pelo pescoço,
lentamente,
e, iluminando teu dorso forte,
seu clarão banha...

II
Eu, em pé e recostada
no umbral de tua cabana...
Hoje rezo, choro e rogo,
sabendo inutilmente,
que o curso vagaroso
e feito pela lua refulgente,
eu não posso seguir...
Este amor me engana...

III
Mas me encorajo,
qual a lua silenciosa em teu leito...
Pé ante pé eu chego a tí...
Coração pulando no peito;
e como ela me aproximo,
vendo teu doce repousar...

IV
Como ela, sinto teu calor,
que não me deixa respirar...
O estalo indevido ocorre e me aprumo...
Não tem jeito;
saio do quarto como vim...
Você poderia acordar...

Maria Antonieta R. Mattos