sábado, 11 de outubro de 2008

Tipo assim... - Kledir Ramil

Tô ficando velho!
Um dia desses, às 2 da manhã, peguei o carro e fui buscar minha filha adolescente na saída do show do Charlie Brown Jr. Ela e as amigas estavam eufóricas e eu ali, meio dormindo, meio de pijama, tentei entrar na conversa:
- E aí, o show foi legal?
A resposta veio de uma mais exaltada do banco de trás:
- Cara! Tipo assim, foda!
E outra emendou:
- Tipo assim, foda mesmo!
Fiquei tipo assim calado o resto do percurso, cumprindo minha função de motorista. Tô precisando conversar um pouco mais com minha filha, senão daqui a pouco vamos precisar de tradução simultânea. Pra piorar ainda mais, inventaram o ICQ, essa praga da Internet onde elas ficam horas e horas escrevendo abobrinhas umas pras outras, em código secreto. Tipo assim:
- kct! vc tmb nunk tah trank, kra. Eh d+, sl. T+ Bjoks. Jubys.
Em português:
- Cacete! Você também nunca está tranqüila, cara. É demais, sei lá. Até mais, beijocas. Jubys".
Jubys, que deve ser pronunciado "diúbis", é isso mesmo que você está imaginando, a assinatura.
Só que o nome de batismo é Júlia, um nome bonito, cujo significado é "cheia de juventude", que eu e minha mulher escolhemos, sentados na varanda, olhando a lua... pois Jubys é hoje essa personagem de cabelo cor de abóbora, cheia de furos na orelha que quer encher o corpo de piercings e tatuagens.
Tô ficando velho!
Outro dia tentei explicar pro mesmo bando de adolescentes o que era uma máquina de escrever. Nunca viram uma. A melhor definição que consegui foi "é tipo assim um computador que vai imprimindo enquanto você digita". Acho que não entenderam nada. Eu sou do tempo do mimeógrafo. Pra quem não sabe, é uma máquina que você coloca álcool e dá manivela pra imprimir o que está na folha matriz.
Por sua vez, essa matriz precisa ser datilografada (ver "datilografia" no dicionário) na tal máquina de escrever, sem a fita (o que faz com que você só descubra os erros depois do trabalho feito), com o papel carbono invertido... Enfim, procure na Internet que deve haver algum site sobre mimeógrafo, papel carbono, essas coisas.
Se eu ficar explicando cada vocábulo descontinuado, não vou conseguir acompanhar meu próprio raciocínio.
Voltando às garotas, a cultura cinematográfica delas varia entre a "obra" de Brad Pitt e a de Leonardo de Caprio. Há anos tento convencê-las a ver "Cantando na Chuva", mas sempre fica para depois. Um dia, cheguei entusiasmado em casa com a fita de um filme francês que marcou minha infância: "A guerra dos botões". Juntei toda a família para a exibição solene e a coisa não durou nem 5 minutos. O guri foi jogar bola, Jubys inventou "um trabalho de história sobre a civilização greco-romana que tem que entregar tipo assim até amanhã senão perde ponto" , e até minha mulher, de quem eu esperava um mínimo de solidariedade, se lembrou que tinha um compromisso com hora marcada e se mandou. Fiquei ali, assistindo sozinho e lembrando do tempo em que eu trocava gibi na porta do Capitólio.
Uma amiga me contou que o filho de 10 anos ficou espantado quando viu um telefone de discar. Sabe telefone de discar? É tipo assim um aparelho sem teclas, geralmente preto, com um disco no meio, todo furado, onde cada furo corresponde a um algarismo. Você enfia o dedo indicador no buraco correspondente ao número que precisa registrar, gira o negócio até uma meia lua de metal e solta a roleta, que lá por dentro está presa a uma mola e faz ela voltar à sua posição inicial.
Esse aparelho serve para conversar com outra pessoa como qualquer telefone comum, desde que esteja, é claro, conectado na parede.
Eu sou do tempo em que vidro de carro fechava com maçaneta. E o Fusca tinha estribo e quebra vento. Não espalha, mas eu andei de Simca Chambord, de DKW, Gordini, Aero Willis e até de Romiseta. Não dá pra explicar aqui o que era uma Romiseta, só vou dizer que era tipo assim um veículo automotivo, com 3 rodas, que a gente entrava pela frente e a direção era grudada na porta. Procure na Internet, deve haver um site.
Tá bom, tá bom, confesso mais. Usei Camisa Volta ao Mundo, casaquinho de Banlon, assisti à Jovem Guarda, o Direito de Nascer... mas é mentira essa história de que meu primeiro disco gravado foi em 78 rotações. Há pouco tempo, João, meu filho de 8 anos, pegou um LP e ficou fascinado. Botei pra tocar e mostrei a agulha rodando dentro do sulco do vinil. Expliquei que aquele atrito gerava o som que estávamos escutando... mas aí ele já estava jogando o Pokemon Stadium no Game Boy. Não é que ele seja desinteressado, eu é que fiquei patinando nos detalhes. Ele até que é bastante curioso e adora ouvir as "histórias do tempo em que eu era criança". Quando contei que a TV, naquela época, era toda em preto e branco ele "viajou" na idéia de que o mundo todo era em preto e branco e só de uns tempos para cá é que as coisas começaram a ganhar cores. Acho que de certa forma ele tem razão. Tipo assim...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Seiscentos e sessenta e seis

A vida é uns deveres
que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ª feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
Eu nem olhava o relógio
Seguia sempre, sempre em frente...

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.


Mário Quintana

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Não chega tarde


I
Não! Nada chega tarde, porque
as coisas ciosas tem suas diferenças,
desde uma espiga até a flor...
E qualquer tempo é tempo para
que chegue o amor
tudo tem seu tempo justo, como
o trigo e a rosa...

II
Não! O amor não chega tarde em
teu coração e o meu,
o amor; a qualquer hora, não bate
em porta certa...
ele a toca desde o lado de dentro
porque ela está aberta
E porque sabe que não existe amor
tardío, só no apogeu...
III
E se existe um amor valente... tem
outro que é covarde, mas, de
todo modo, nenhum deles
chega tarde...

IV
Amor... Um Eros insano tendo nas
faces um sorriso louco,
e nada está a salvo se ele, às aflições,
magicamente suaviza
se aproximando lentamente, assim
como vem a brisa...
lança sua flecha certeira, só pra se
divertir um pouco...

V
É assim que este menino-deus
travesso joga, sempre forte,
e sempre mais, enquanto a flecha
entra na ferida...
E até porque, tem nela mesma, o
veneno da ilusão perdida,
a mulher se queda atingida, ferida
profundamente de morte

VI
A mulher arde em sua chama de
paixão... E mais e mais arde...
E mesmo assim não poderemos
dizer que o amor chega tarde...

VII
Não...! Eu não direi nunca em qual
noite de verão, eu não direi
nunca sobre a noite que
só a ti, te digo...
noite que me incendiou o sangue,
que fiquei contigo,
que me estremeceu de febre tua mão
em minha mão...

VIII
Não...! Eu não direi nada dessas
coisas e, todavia menos,
direi do que eu pude observar, em tua
fisionomia pesada...
Mostravas então um rosto
pétreo... Era como uma porta fechada,
levando à rodo minha alegria e amor...
Meus dias serenos...

IX
Nada mais... É porque não era o tempo
do trigo e nem da flor... E,
nem sequer então, eu pude dizer que...
Chegou tarde o amor.


Maria Antonieta R. Mattos

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Acreditar é importante

"Acreditar é importante, tão importante que é fundamental para se conseguir algo. É paradoxal às vezes, pois quanto maior a dificuldade, também maior é a certeza ou a intuição. E quando conseguimos alcançar o objetivo saimos fortalecidos para o próximo desafio. Enfim, só acredita quem ama."

Cícero Alvernaz

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Objetivo


Nos confins do Universo,
Mora uma alma encarnada.
Dentro dess'alma um verso,
Dentro do verso uma estrada...
Nos confins dessa estrada,
Mora algo pequenino.
Dentro do algo, uma escada.
E, na escada, o destino.
Genildo Mota Nunes

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A flor e a fonte

“Deixa-me, fonte!” Dizia
A flor tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
cantava levando a flor.

“Deixa-me, deixa-me fonte!”
Dizia a flor a chorar:
“Eu fui nascida no monte...
Não me leves para o mar.”

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

“Ai, balanços do meu galho,
Balanços do berço meu;
“Ai, claras gotas de orvalho
Caídas do azul do céu!...”

Chorava a flor, e gemia
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria,
Rolava levando a flor.

“Adeus, sombra das ramadas,
Cantigas do rouxinol,
“Ai, festas das madrugadas,
Doçuras do pôr-do-sol;

“Carícia das brisas leves
Que abrem rasgões de luar...
“Fonte, fonte, não me leves,
Não me leves para o mar!...”

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor.

Vicente de Carvalho


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Os acrobatas


Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse fisica dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.

Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão.

Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o
tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!

Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!

Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.

Como no espasmo.

E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus

Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.

E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.
Vinícius de Moraes