terça-feira, 21 de outubro de 2008

Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Nesta vida, em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me encontro quando de mim fujo.
Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera alma que em mim estava?
Atada pelos braços corporais,
Não podia ser mais.
Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem bem olhasse
A Presença Real sob disfarce
Da minha alma presente sem intento.

Pousa um momento,
Um só momento em mim,
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!
No olhar a alma também
Olhando-me, e eu a ver
Tudo quanto de ti teu olhar tem.
A ver até esquecer
Que tu és tu também.
Só tua alma sem tu
Só o teu pensamento
E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou
Ficou com o momento
E o momento parou.

Fernando Pessoa


segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Luz entre sombras

É noite medonha e escura,
Muda como o passamento*
Uma só no firmamento
Trêmula estrela fulgura.
Fala aos ecos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E num canto sonolento
Entre as árvores murmura.
Noite que assombra a memória,
Noite que os medos convida,
Erma, triste, merencória.
No entanto... minha alma olvida
Dor que se transforma em glória,
Morte que se rompe em vida.
Machado de Assis, in 'Falenas'

sábado, 18 de outubro de 2008

A lição da rainha


Lula, numa visita à Europa, vai jantar com a rainha da Inglaterra. De repente, ele pergunta: "Vossa Majestade, a senhora me impressiona. Como pode estar sempre cercada de pessoas inteligentes? Como a senhora faz?" "Muito simples. Eu os deixo sempre em alerta. Faço um teste de QI regularmente, só pra ver se a inteligência deles ainda está bem viva." Lula fica surpreso e interessado: "E como a senhora faz isso?" A rainha concorda em lhe mostrar um exemplo. Pega o telefone e liga para Tony Blair: "Bom dia, Tony. Tenho um pequeno teste para você." Tony responde todo respeitoso: "Bom dia, Majestade. Pois não, estou pronto para o teste, pode perguntar."

"Muito bem Tony. O teste é o seguinte: - É filho do seu pai e da sua mãe, mas não é seu irmão, nem sua irmã. Quem é?" Tony Blair mata a charada: "Muito simples, Majestade: sou eu mesmo." A rainha aplaude: "Bravo, Tony! Como sempre, inteligente. Até a próxima."

Lula fica impressionadíssimo: "Wow!" De volta ao Brasil, ele decide botar em prática a técnica da rainha. Telefona para a companheira Dilma e pergunta: "Dilma, é o Lula, companheira. Tenho aqui um pequeno teste de inteligência para você."Dilma se prontifica. "Seguinte, Dilma: - É filho da sua mãe e do seu pai, mas não é seu irmão nem sua irmã. Quem é?" Dilma titubeia e responde: "Ah, Lula, eu não esperava um teste assim, de supetão. Tenho que pensar alguns minutos. Te telefono depois, certo?" "Sem problemas, até logo."

Imediatamente Dilma liga pro Eduardo Suplicy, pois ele tem fama de inteligente. Faz a mesma pergunta que lhe foi feita, a que Eduardo responde: "Ora, bolas! Sou eu mesmo, Dilma!" E Dilma liga novamente para o Lula: "Senhor presidente, poderia formular sua pergunta novamente, por favor? Creio que tenho a resposta." Lula puxa o papelzinho do bolso da calça e lê novamente a pergunta: "É filho de sua mãe e de seu pai, mas não é seu irmão nem sua irmã. Quem é?" Na ponta da língua, a Dilma responde vitoriosa: "Simples, presidente: ora, bolas, é o Eduardo Suplicy!"

Lula dá seu sorrisinho sabido e diz: - Te peguei, companheira Dilma. Sua resposta está completamente errada... o bebê é o Tony Blair!


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Medo da eternidade



Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. -Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

Clarice Lispector

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ode à poesia

A poesia voa livre, pelo vento livre voa.
A rima me conduz como a leitura de Pessoa.
Dos Anjos que tem o verso nada angelical.
Chamou atenção como Baudelaire versando sobre o mal.
Baudelaire da poesia em prosa, dos paraísos artificiais.
Pasárgada, paraíso dos persas e de Manuel Bandeira.
O amor floresce nos versos de Cartola da Mangueira.
A poesia nasceu da rima. A rima tem funções demais.
Existe poesia sem rima! O poeta tem que ser sagaz, perspicaz.
Mas sem mensagem e sublime inspiração
A poesia não se constrói, não existe jamais.
Razão e emoção me confundem mas guiam minha mão.

De explicar a inspiração o artista nunca é capaz.
Compreenda o mal, faça o bem, busque a Paz!

autor desconhecido

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Simplicidade, felicidade

Simplicidade... Simplicidade...
Ser como as rosas, o céu sem fim,
a árvore, o rio... Por que não há de
ser toda gente também assim?

Ser como as rosas: bocas vermelhas
que não disseram nunca a ninguém
que têm perfumes... Mas as abelhas
e os homens sabem o que elas têm!

Ser como o espaço, que é azul de longe,
de perto é nada... Mas quem o vê
— árvores, aves, olhos de monge... —
busca-o sem mesmo saber porque.

Ser como o rio cheio de graça,
que move o moinho, dá vida ao lar,
fecunda as terras... E, rindo, passa,
despretensioso, sempre a cantar.

Ou ser como a árvore: aos lavradores
dá lenha e fruto, dá sombra e paz;
dá ninho às aves; ao inseto flores...
Mas nada sabe do bem que faz.

Felicidade — sonho sombrio!
Feliz é o simples que sabe ser
como o ar, as rosas, a árvore, o rio:
simples, mas simples sem o saber!

Guilherme de Almeida


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sonhos de menino

Acordado ou se dormia jamais saberei
Uma noite diferente, obra do destino
Não sei a razão mas meus olhos fechei
Estranha visão tive, era tão pequenino
No escuro nada via, perdido fiquei
Seria eu Homem ou apenas menino
Deveras assustado olhei em redor
Tentando entender um pouco melhor...

Uma luz branca surgiu e iluminou
Imensa, forte, cegava de tão brilhante
Dei voltas no ar, meu corpo rodopiou
Num raio de luz intenso e deslumbrante
Sem que avisasse nesse instante parou
Deixou-me noutro mundo, numa terra distante
À minha volta tudo luzia, encadeava
Sem explicação a viajar eu estava...
autor desconhecido