quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Se for possível, manda-me dizer

Se for possível, manda-me dizer:

- É lua cheia. A casa está vazia -

Manda-me dizer, e o paraíso

Há de ficar mais perto e mais recente

Me há de parecer teu rosto incerto.

Manda-me buscar se tens o dia

Tão longo como a noite. Se é

Que sem mim só vês monotonia.

E se te lembras do brilho das marés

De alguns peixes rosados

Numas águas

E dos meus pés molhados, manda-me dizer:

- É lua nova -

E revestida de luz te volto a ver.

Hilda Hilst

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

As minhas asas


Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
— Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
— Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
— Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
— Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.

Almeida Garrett

(in Flores sem Fruto)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ninguém escapa

Quando perguntam qual o livro de que mais gostei na vida, é uma sinuca. Deve haver uns 158 livros que eu gostaria de mencionar pelos motivos mais diversos, mas é preciso escolher um só. Uni-duni-tê: há 13 anos respondo que o livro da minha vida é “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago. E gostei demais da versão que Fernando Meirelles levou pro cinema. Gostei mesmo.

Mas não é do filme que quero falar, e sim desse mundo patrulheiro em que estamos vivendo. Algumas associações de deficientes visuais (ao menos nos Estados Unidos) estão apelando pelo boicote ao filme, alegando que a obra passa uma imagem deturpada dos cegos, que não são pessoas tirânicas, depravadas ou com instintos animalescos de sobrevivência, como o filme leva a crer. Deus meu, será tão difícil de entender? O filme é sobre todos nós.

Dá um desânimo ver como algumas pessoas têm dificuldade em abstrair, em compreender metáforas ou em deixar de lado seu complexo de perseguição. Procuram com insistência alguma coisa que as faça se sentirem ofendidas. E encontram, lógico.

Outro dia um jornalista deu uma entrevista na tevê dizendo que o programa dos Trapalhões, hoje, seria líder em acusações de politicamente incorreto. Não duvido. Renato Aragão não tinha nenhum pudor em fazer piada sobre negros, gordos, gays, vegetarianos, loiras, publicitários, políticos ou qualquer outra tribo que rendesse piada – e todas rendem. Hoje ele colecionaria processos. É mais seguro ficar apresentando o Criança Esperança pro resto da vida.

Todas as pessoas devem ser cuidadosas, claro. Não há sentido em perpetuar preconceitos, mas uma terra de paladinos é muito xarope. Um mínimo de jogo de cintura deve ser preservado, senão ninguém mais poderá brincar, se divertir, fazer uma molecagem. Como é que vamos manter a leveza se a turma dos “magoados” não cessa de crescer? Outro dia escrevi sobre escolhas, disse que todos temos escolha, enfim, um assuntinho bobo, prosaico. Recebi um e-mail furioso: “Eu sou depressiva e não tenho escolha!” Ok, quem sofre de depressão tem dificuldade em escolher pela sociabilidade. Entendo. Mas, e agora? Como escrever sobre o incômodo de se perder um óculos de grau, se há mães que perderam filhos? Como escrever sobre a delícia de se caminhar ao ar livre se tem gente que nasceu sem perna, como escrever sobre vinhos se tem gente que nem água potável tem em casa? E nem pensar em elogiar o talento de Amy Winehouse, aquela drogada, devassa. Não importa que ela cante de forma magnífica, tem que ser pura e casta também. Assim como o professor de redação de uma escola carioca, que recentemente foi demitido porque descobriram que ele escrevia poemas eróticos num blog. Que horror! Professor tem que gastar suas horas livres escrevendo vovô viu a uva. Se é que isso não é suspeito também…

Na onda desse abacaxi chamado “politicamente correto”, muita gente acha que está salvando o mundo, quando está apenas defendendo sua própria tacanhice.


Martha Medeiros
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 15759, 15/10/2008.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Canção do dia de sempre


“Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…"

Mário Quintana

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Raças e cores


No Brasil, Senhor, não há raças
há cores, tonalidades
todos os matizes
numa hierarquia de cores, de classes
-preconceito, sim
(em casa, velado na rua)
segregação, nem tanto-
no processo de embranquecimento.


Raça, só dos animais inferiores.

Uma mestiçagem devoradora
-cruzamentos
até o infinito.

Uma nova etnia
fundindo ressentimentos
-da escravatura
-dos desterros
-das imigrações
em que se aprende
a dormir em rede
a despir-se
em que o dendê e a pimenta
não são mais privilégio de índios e africanos.

A luta é entre o arcaico
e o moderno,
entre o patriarcal
e o comunitário, porque,
negros, índios e mestiços
continuam pobres.



Antônio Miranda
Extraído da obra TERRA BRASILIS.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Palavras ao vento


A primeira letra do alfabeto é também a primeira letra da palavra amor e se acha importantíssima por isso!
Com A se escreve "arrependimento" que é uma inútil vontade de pedir ao tempo para voltar atrás e com A se dá o tipo de tchau mais triste que existe: "adeus"... Ah, é com A que se faz "abracadabra", palavra que se diz capaz de transformar sapo em príncipe e vice-versa...
Com B se diz "belo" - que é tudo que faz os olhos pensarem ser coração; e se dá a "bênção", um sim que pretende dar sorte.
Com C, "calendário", que é onde moram os dias e o "carnaval", esta oportunidade praticamente obrigatória de ser feliz com data marcada. "Civilizado" é quem já aprendeu a cantar "parabéns pra você" e sabe o que é "contrato": "você isso, eu aquilo, com assinatura embaixo".
Com D , se chega à "dedução", o caminho entre o "se" e o"então"... Com D começa "defeito", que é cada pedacinho que falta para se chegar à perfeição e se pede "desculpa", uma palavra que pretende ser beijo.
E tem o E de "efêmero", quando o eterno passa logo; de"escuridão", que é o resto da noite, se alguém recortar as estrelas; e "emoção", um tango que ainda não foi feito. E tem também "eba!", uma forma de agradecimento muito utilizada por quem ganhou um pirulito, por exemplo...
F é para "fantasia", qualquer tipo de "já pensou se fosse assim?"; "fábula", uma história que poderia ter acontecido de verdade, se a verdade fosse um pouco mais maluca; e "fé", que é toda certeza que dispensa provas.
A sétima letra do alfabeto é G, que fica irritadíssima quando a confundem com o J. G, de "grade", que serve para prender todo mundo - uns dentro, outros fora; G de "goleiro", alguém em quem se pode botar a culpa do gol; G de "gente": carne, osso, alma e sentimento, tudo isso ao mesmo tempo.
Depois vem o H de "história": quando todas as palavras do dicionário ficam à disposição de quem quiser contar qualquer coisa que tenha acontecido ou sido inventada.
O I de "idade", aquilo que você tem certeza que vai ganhar de aniversário, queira ou não queira.
J de "janela!, por onde entra tudo que é lá fora e de "jasmim", que tem a sorte de ser flor e ainda tem a graça de se chamar assim.
L de "lá", onde a gente fica pensando se está melhor ou pior do que aqui; de "lágrima", sumo que sai pelos olhos quando se espreme o coração, e de "loucura", coisa que quem não tem só pode ser completamente louco.
M de "madrugada", quando vivem os sonhos...
N de "noiva", moça que geralmente usa branco por fora e vermelho por dentro.
O de "óbvio", não precisa explicar...
P de "pecado", algo que os homens inventaram e então inventaram que foi Deus que inventou.
Q, tudo que tem um não sei quê de não sei quê.
E R, de "rebolar", o que se tem que fazer pra chegar lá.
S é de "sagrado", tudo o que combina com uma cantata de Bach; de "segredo", aquilo que você está louco pra contar; de "sexo": quando o beijo é maior que a boca.
T é de "talvez", resposta pior que "não", uma vez que ainda deixa, meio bamba, uma esperança... de "tanto", um muito que até ficou tonto... de "testemunha": quem por sorte ou por azar, não estava em outro lugar.
U de "ui", um "ài" que ainda é arrepio; de "último", que anuncia o começo de outra coisa; e de "único": tudo que, pela facilidade de virar nenhum, pede cuidado.
Vem o V, de "vazio", um termo injusto com a palavra nada; de "volúvel", uma pessoa que ora quer o que quer, ora quer o que querem que ela queira.
E chegamos ao X, uma incógnita... X de "xingamento", que é uma palavra ou frase destinada a acabar com a alegria de alguém; e de "xô", única palavra do dicionário das aves traduzida para o português.
Z é a última letra do alfabeto, que alcançou a glória quando foi usada pelo Zorro... Z de "zaga", algo que serve para o goleiro não se sentir o único culpado; de "zebra", quando você esperava liso e veio listrado; e de "zíper", fecho que precisa de um bom motivo pra ser aberto; e de "zureta", que é como fica a cabeça da gente ao final de um dicionário inteiro.


Pedro Bial

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Manhã de verão


As nuvens, que, em bulcões, sobre o rio rodavam,
Já, com o vir da manhã, do rio se levantam.
Como ontem, sob a chuva, estas águas choravam!
E hoje, saudando o sol, como estas águas cantam!
A estrela, que ficou por último velando,
Noiva que espera o noivo e suspira em segredo,
- Desmaia de pudor, apaga, palpitando,
A pupila amorosa, e estremece de medo.
Há pelo Paraíba um sussurro de vozes,
Tremor de seios nus, corpos brancos luzindo...
E, alvas, a cavalgar broncos monstros ferozes,
Passam, como num sonho, as náiades fugindo.
A rosa, que acordou sob as ramas cheirosas,
Diz-me: "Acorda com um beijo as outras flores quietas!
Poeta! Deus criou as mulheres e as rosas
Para os beijos do sol e os beijos dos poetas!"
E a ave diz: "Sabes tu? conheço-a bem... Parece
Que os Gênios de Oberon bailam pelo ar dispersos,
E que o céu se abre todo, e que a terra floresce,
- Quando ela principia a recitar teus versos!»
E diz a luz: "Conheço a cor daquela boca!
Bem conheço a maciez daquelas mãos pequenas!
Não fosse ela aos jardins roubar, trêfega e louca,
O rubor da papoula e o alvor das açucenas!
"Diz a palmeira: "Invejo-a! ao vir a luz radiante,
Vem o vento agitar-me e desnastrar-me a coma:
E eu pelo vento envio ao seu cabelo ondeante
Todo o meu esplendor e todo o meu aroma!"
E a floresta, que canta, e o sol, que abre a coroa
De ouro fulvo, espancando a matutina bruma,
E o lírio, que estremece, e o pássaro, que voa,
E a água, cheia de sons e de flocos de espuma,
Tudo, - a cor, o dano, o perfume e o gorjeio,
Tudo, elevando a voz, nesta manhã de estio,
Diz: "Pudesses dormir, poeta! no seu seio,
Curvo como este céu, manso como este rio!"
Olavo Bilac