
É assim a nossa vida na terra
Como uma estrela da manhã,
uma bolha sobre a água
Uma gota de orvalho,
um relâmpago no céu de verão,
Um sonho neste mundo flutuante.
Sutra de Diamante
Ah, esse nosso olho que vê o mundo mas não vê a si mesmo. E que ainda pensa que se vê quando se olha no espelho.Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
Hilda Hilst

Eu tinha umas asas brancas,Asas que um anjo me deu,Que, em me eu cansando da terra,Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem luaQue eu contemplava as estrelas,E já suspenso da terra,Ia voar para elas,— Deixei descair os olhosDo céu alto e das estrelas...Vi entre a névoa da terra,Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,Asas que um anjo me deu,Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funestaDe enfeitiçados amores...Fatal amor, negra horaFoi aquela hora de dores!
— Tudo perdi nessa horaQue provei nos seus amoresO doce fel do deleite,O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
Almeida Garrett
(in Flores sem Fruto)
Quando perguntam qual o livro de que mais gostei na vida, é uma sinuca. Deve haver uns 158 livros que eu gostaria de mencionar pelos motivos mais diversos, mas é preciso escolher um só. Uni-duni-tê: há 13 anos respondo que o livro da minha vida é “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago. E gostei demais da versão que Fernando Meirelles levou pro cinema. Gostei mesmo.
“Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…"Mário Quintana

No Brasil, Senhor, não há raças
há cores, tonalidades
todos os matizes
numa hierarquia de cores, de classes
-preconceito, sim
(em casa, velado na rua)
segregação, nem tanto-
no processo de embranquecimento.
Raça, só dos animais inferiores.
Uma mestiçagem devoradora
-cruzamentos
até o infinito.
Uma nova etnia
fundindo ressentimentos
-da escravatura
-dos desterros
-das imigrações
em que se aprende
a dormir em rede
a despir-se
em que o dendê e a pimenta
não são mais privilégio de índios e africanos.
A luta é entre o arcaico
e o moderno,
entre o patriarcal
e o comunitário, porque,
negros, índios e mestiços
continuam pobres.
Antônio MirandaExtraído da obra TERRA BRASILIS.