quarta-feira, 18 de março de 2009

A palavra

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos, saboreando-a.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 16 de março de 2009

Espelhos


As duas últimas semanas foram, no mínimo, curiosas. Durante esse período, jurei quatro vezes que seguiria a dieta, direitinho, para ficar bonita para o tipo de espelho que não tenho em casa. Contei pra vocês? Tenho espelhos para não apreciar reflexo de mim.

Um fica no quarto e é redondo, pequeno, velhinho, e eu o guardo como lembrança de superações. Mas isso em nada tem a ver com me olhar nele e me sentir linda que só. Atrás desse espelho, na moldura de cortiça, há rabiscos de alguém muito querido sobre isso: superação. Antes de chegar lá, essa pessoa escreveu sobre sua solidão atrás do espelho. Não consegui me desfazer dele.
O outro espelho nem meu é... O do banheiro, alugado com o apartamento, onde olho para mim, já saindo, todos os dias, só para saber se não estou descabelada.

Quando pequena, gostava mesmo era do reflexo meu na Represa Billings, quase quintal de casa; no tanque cheio de água para banho de refrescar da tarde quentíssima, nas grandes bacias que antecederam o chuveiro elétrico. Na verdade, não era o meu reflexo que importava, mas a forma como a água o despenteava, deixando minha imagem com um movimento que me agradava muito mais do que a linearidade que as pessoas teimavam em dar à imagem da outra, sem saber sequer se elas concordavam com ela.

Adolescente, tive uma penteadeira no quarto, herdada de minha mãe, na fase de querer me transformar em adulta de vez. À noite, olhava para o espelho suspeitando de que nele havia algum tipo de magia. Além de chamar relâmpagos para dançar e depois explodir em caquinhos, ouvi dizer que se olhasse no espelho, com a luz apagada, veria o reflexo dos espíritos que me acompanhavam. Por mais sedutora que me parecia a ideia de que o espírito tem uma jornada muito maior do que, na carcaça, podemos imaginar, o medo de me saber tão capaz de ir além do espelho me fazia recuar.
Antes de dormir, ficava em pé perto do interruptor, fechava os olhos e depois corria pra cama, garantindo que meus olhos não alisassem o espelho, durante o caminho.

Os espelhos d’água sempre me fascinaram de uma maneira muito intensa. Se me largarem à beira de uma poça de água, é capaz de eu ficar por lá um bom tempo, observando como o vento vem e reescreve a figura dela. Essa capacidade de mudança e, ao mesmo tempo, de se adequar ao espaço que lhe cabe no momento, tem um poder sobre a minha transformação – ou lapidação – pessoal. Sou uma pessoa melhor por conta das poças d’água que a vida permite observar, pular, secar, à escolha dessa freguesa aqui.

Talvez haja um espelho por aí que não seja cruel como o da bruxa da Branca de Neve, porque, pense bem, ver-se sempre linda, bonequinha, sabendo que basta puxar a máscara e não somente as rugas entrarão no palco, mas também essa coisa letal de acreditar que a imagem refletida deve ser sempre impecável. E durante essa ilusão de que o espelho, aquele enorme fixado na porta do armário ou na parede do quarto, é o sábio que abarca a identidade da beleza, perde-se a capacidade de olhar a si mesma com a sutileza da compreensão da própria humanidade.

Sei que nunca tive espelho para comprovar quando e se fui bonita, ou quando e se deixei de ser. Engraçado que você só sabe que é depois de ter sido, o que acho um pleonasmo temporal. E depois que foi, sabe Deus se conseguirá ser novamente, ou se o novo ser que cultivou caberá no espelho-modelo da sociedade. Para mim este espelho-modelo não serve, nunca quis caber nele, tampouco aplico suas regras às outras pessoas. Porém, é fato que seus cacos doem debaixo dos pés até de quem duvida da existência dele.

De vez em quando o espelho me dá uma canseira... Não os d’água... Esses eu gosto de namorar.

Carla Dias


quinta-feira, 12 de março de 2009

Noturno



Não sei por que, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca…
Eu penso em ti, em Deus, nas voltas
inumeráveis que fazem os caminhos…
Em Deus, em ti, de novo…
Tua ternura tão simples…
Eu queria, não sei por que, sair correndo descalço pela noite imensa
E o vento da madrugada me encontraria morto junto de um arroio,
Com os cabelos e a fronte mergulhados na água límpida…
Mergulhados na água límpida, cantante e fresca de um arroio!

Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar.
Por isso o meu verso tem
Esse quase imperceptível tremor…
A vida é louca, o mundo é triste:
Vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor…

Mário Quintana

terça-feira, 10 de março de 2009

Se o meu mundo não fosse humano


Se o meu mundo não fosse humano, também haveria lugar para mim:

eu seria uma mancha difusa de instintos,

doçuras e ferocidade, uma trêmula irradiação de paz e luta:

se o mundo não fosse humano eu me imaginaria sendo um bicho.

Por um instante então desprezo o lado humano da vida

e experimento a silenciosa alma da vida animal.

É bom, é verdadeiro, ela é a semente do que depois se torna humano.


(Clarice Lispector in A descoberta do mundo)

sexta-feira, 6 de março de 2009

As escolhas que fazemos


"As escolhas que fazemos, nos arrasta ou nos eleva.
Mas tudo depende do teu momento, de quem olha.
E da aceitação. Descobrir qual o caminho...
eis o maior desafio das asas."
Autor desconhecido


quinta-feira, 5 de março de 2009

Encomenda


"Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? —
como esta: em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga,
que me empresta um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não...
Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia."

Cecília Meireles

terça-feira, 3 de março de 2009

Bebido o luar


Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen