
Augusto Cury

Quem pensouque esta denúncia se enganava?
Que um dia era piorque outro diaQue à noite era melhorporque sonhava?
Quem disseque esta dor te pertencia?
Quem pensou que este amorme perturbava?
Que o longe era mais pertose fugiasQue o dentro era mais longeporque estavas?
Quem disseque este ardor te evidencia?
Quem pensou que esta pename cansava?
Que calar era piorse te despiaQue gritar era melhorse te largava?
Quem disseque esta paixão me curaria?
Quem pensou que esta loucurame passava?
Que deixar-te era pazporque corriaQue querer-te era mauporque te amava?
Quem disseque esta paixão te espantaria?
Quem pensou que esta saudademe rasgava?
Que tudo era diferentese te viaQue o pior era saberque aqui não estavas?
Quem disseque esta ternura te devia?
Quem pensou que este saberse enganava?
Maria Teresa Horta
Cheguei. Sinto de novo a natureza.Longe do pandemônio da cidadeAqui tudo tem mais felicidadeTudo é cheio de santa singeleza
Vagueio pela múrmura levezaQue deslumbra de verde e claridadeMas nada. Resta vívida a saudadeDa cidade em bulício e febre acesa
Ante a perspectiva da partidaSinto que me arranca algo da vidaMas quero ir. E ponho-me a pensar
Que a vida é esta incerteza que em mim moraA vontade tremenda de ir-me emboraE a tremenda vontade de ficar
Vinícius de Moraes

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pelas mãos das Estações
A seguir e a olhar.Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no mundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
E é porque sinto o que escrevo ao pôr do sol
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
Em cima dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos
Que sou qualquer cousa natural
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente,
Com a manga do bibe riscado.Fernando Pessoa
Chegar,
Como brisa que atravessa janela.
Soprando de leve,
As brumas do passado.
Chegar,
Como o barco.
Trazendo alegrias,
Após enfrentar as procelas sombrias.
Chegar,
Como a saudade.
Que bate,
De manso, no coração.
Chegar,
Como chuva, fininha,
Mansinha, criadeira,
Necessária e tão querida.
Ficar,
Nas lembranças do passado,
Nas estampas do presente,
A retratar nosso ontem no hoje.
Ficar,
Para sempre.
Na imagem nunca esquecida,
Dos que nos são tão queridos.
A vida,
É chegar e ficar,
Para sempre.
Vida nunca será partida.Cecília Meireles