quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A vida


A vida, acredita, não é um sonho
Tão negro quanto os sábios dizem ser.
Frequentemente uma manhã cinzenta
Prenuncia uma tarde agradável e soalhenta.
Às vezes há nuvens sombrias
Mas é apenas em certos dias;
Se a chuvada faz as rosas florir
Ó porquê lamentar e não sorrir?
Rapidamente, alegremente
As soalhentas horas da vida vão passando
Agradecidamente, animadamente
Goza-as enquanto vão voando.
E quando por vezes a Morte aparece
E consigo o que de Melhor temos desaparece?
E quando a dor se aprofunda
E a esperança vencida se afunda?
Oh, mesmo então a esperança há-de renascer,
Inconquistável, sem nunca morrer.
Alegre com a sua asa dourada
Suficientemente forte para nos fazer sentir bem
Corajosamente, sem medo de nada
Enfrenta o dia do julgamento que vem.
Porque gloriosamente, vitoriosamente
Pode a coragem o desespero vencer.
Emile Brontë

sábado, 30 de outubro de 2010

É peixe


Anda, que beleza é oceano.
Brinca, que o vento quer companhia.
É água, escapa e se vai...
É mágica, porque é música.
De sorriso em sol.
De calor, amor.
E das estrelas, os olhos.
Um respirar de brisa e um sorriso de música.
Viaja por canções.
Agradece, pelas certezas tortas.
Um riso que não descansa.
Uma mania, que nunca passa.


Autor desconhecido

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Traduzir-se

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.




Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.



Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.



Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.
 


Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.




Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.



Traduzir uma parte

na outra parte

— que é uma questão

de vida ou morte —

será arte?


Ferreira Gullar

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Deixe em paz meu coração


Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água.
Chico Buarque

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A borboleta




Trazendo uma borboleta,
Volta Alfredo para casa.
Como é linda! é toda preta,
Com listas douradas na asa.

Tonta, nas mãos da criança,
Batendo as asas, num susto,
Quer fuguir, porfia, cansa,
E treme, e respira a custo.

Contente, o menino grita:
"É a primeira que apanho,
"Mamãe! vê como é bonita!
"Que cores e que tamanho!

"Como voava no mato!
"Vou sem demora pregá-la
"Por baixo do meu retrato,
"Numa parede da sala".

Mas a mamãe, com carinho,
Lhe diz: "Que mal te fazia,
"Meu filho, esse animalzinho,
"Que livre e alegre vivia?

"Solta essa pobre coitada!
"Larga-lhe as asas, Alfredo!
"Vê como treme assustada . . .
"Vê como treme de medo . . .

"Para sem pena espetá-la
"Numa parede, menino,
"É necessário matá-la:
"Queres ser um assassino?"

Pensa Alfredo . . . E, de repente,
Solta a borboleta . . . E ela
Abre as asas livremente,
E foge pela janela.

"Assim, meu filho! perdeste
"A borboleta dourada,
"Porém na estima cresceste
"De tua mãe adorada . . .

"Que cada um cumpra sua sorte
"Das mãos de Deus recebida:
"Pois só pode dar a Morte
"Aquele que dá a Vida!"

Olavo Bilac

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Eu já estou tão desacostumado...




...E eu já estou tão desacostumado de me contar inteiramente a alguém,
tão desacreditando na capacidade de compreensão do outro, sei lá,
não é nada disso, sabe?
Conviver é difícil — as pessoas são difíceis —
viver é difícil paca.
[Caio F. Abreu]

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Tenho a impressão de ter sido uma criança...



"Tenho a impressão de ter sido uma criança brincando à beira-mar, divertindo-me em descobrir uma pedrinha mais lisa ou uma concha mais bonita que as outras, enquanto o imenso oceano da verdade continua misterioso diante de meus olhos".


Isaac Newton