quinta-feira, 17 de março de 2011

Uma Recordação



Não há homem que consiga deixar uma marca
nela. Todo o passado se dilui num sonho
como uma rua na manhã e só fica ela.
Se não fosse a testa franzida por um momento
pareceria atônita. As maçãs do rosto têm sempre
um sorriso.
Também não se acumulam os dias
no seu rosto, nem alteram o sorriso leve
que irradia sobre todas as coisas. Com uma firmeza dura
faz cada coisa como se fosse a primeira;
no entanto vive-a até ao último momento. O seu corpo
firme abre-se, o olhar recolhido,
a uma voz doce e algo rouca: à voz
dum homem cansado. E nenhum cansaço a toca.
Quando se lhe olha para a boca, semicerra os olhos
à espera: ninguém se arriscaria.
Muitos homens conhecem o seu ambíguo sorriso
ou a súbita ruga. Se homem existiu
que a soube queixosa, humilhada de amor,
paga dia após dia, ignorando dela
por quem vive hoje.
Caminhando pela rua
sorri sozinha o sorriso mais ambíguo. 
Cesare Pavese, in "Trabalhar Cansa'"
Tradução de Carlos Leite

 


 

terça-feira, 15 de março de 2011

Não se pode pensar bem...



"Não se pode pensar
bem, amar bem, dormir bem,
 quando não se jantou bem." 

Virginia Woolf

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sábado, 12 de março de 2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

Que eu tenha delicadeza para acolher...



"Que eu tenha delicadeza para acolher aqueles que entrarem
na roda e sabedoria para abençoar aqueles que dela se retirarem.
Quero ter cuidado para não soltar a minha mão da mão da
generosidade, durante o percurso. E, quando soltá-la, pelas
distrações causadas pelo egoísmo, quero ter a atenção para
sincronizar o meu passo com o dela de novo. Quero ser respeitosa
com as limitações alheias e me recordar mais vezes o quanto é
trabalhoso amadurecer . Quero aprender a converter toda a energia
disponível às mudanças que me são necessárias, em vez de empregar
no julgamento das outras pessoas . Que as dificuldades que eu
enfrentar ao longo da jornada não me roubem a capacidade de
encanto. A coragem para me aproximar, um pouco mais a cada dia,
da realização do sonho que me move. A ideia de que a minha vida
possa somar no mundo, de alguma forma."

Ana Jácomo




terça-feira, 8 de março de 2011

O Verão e as Mulheres

Talvez tenha acabado o verão. Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol é muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.

Estamos tranquilos. Fizemos este verão com paciência e firmeza, como os veteranos fazem a guerra. Estivemos atentos à lua e ao mar; suamos nosso corpo; contemplamos as evoluções de nossas mulheres, pois sabemos o quanto é perigoso para elas o verão.

Sim, as mulheres estão sujeitas a uma grande influência do verão; no bojo do mês de janeiro elas sentem o coração lânguido, e se espreguiçam de um modo especial; seus olhos brilham devagar, elas começam a dizer uma coisa e param no meio, ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de descobrir um estranho passarinho. Seus cabelos tornam-se mais claros e às vezes os olhos também; algumas crescem imperceptivelmente meio centímetro. Estremecem quando de súbito defrontam um gato; são assaltadas por uma remota vontade de miar; e certamente, quando a tarde cai, ronronam para si mesmas.

Entregam-se a redes; é sabido, ao longo de toda a faixa tropical do globo, que as mulheres não habituadas a rede e que nelas se deitam ao crepúsculo, no estio, são perseguidas por fantasias e algumas imaginam que podem voar de uma nuvem a outra nuvem com facilidade. Sendo embaladas, elas se comprazem nesse jogo passivo e às vezes tendem a se deixar raptar, por deleite ou preguiça.

Observei uma dessas pessoas na véspera do solstício, em 20 de dezembro, quando o sol ia atingindo o primeiro ponto do Capricórnio, e a acompanhei até as imediações do Carnaval. Sentia-se que ia acontecer algo, no segundo dia da lua cheia de fevereiro; sua boca estava entreaberta: fiz um sinal aos interessados, e ela pôde ser salva.

Se realmente já chegou o outono, embora não o dia 22, me avisem. Sucederam muitas coisas; é tempo de buscar um pouco de recolhimento e pensar em fazer um poema.

Vamos atenuar os acontecimentos, e encarar com mais doçura e confiança as nossas mulheres. As que sobreviveram a este verão.

Março, 1953.

Rubem Braga. Extraído do livro "A Cidade e a Roça", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 27.

sábado, 5 de março de 2011