terça-feira, 5 de abril de 2011

Declaração universal dos direitos da mulher com TPM

Preâmbulo

Considerando as alterações hormonais que afetam as mulheres durante os dias que precedem o período menstrual, e seus consequentes transtornos psicológicos e sentimentais, fica estabelecido que:

ARTIGO I

Toda mulher em dias de TPM tem direito a comer uma caixa de bombons inteira (não ouse se aproximar da caixa) e a tomar leite condensado direto na lata. E que isso não implique em alterações na balança.

ARTIGO II

Toda mulher em dias de TPM tem direito à preferência no trânsito; a encontrar todos os sinais abertos; a receber passagem dos outros motoristas; a encontrar vagas sem que haja necessidade de baliza; e a não ouvir nenhuma buzina — salvo em casos de buzina utilizada como ferramenta de paquera.

ARTIGO III

Toda mulher em dias de TPM tem direito a deitar a cabeça no colo da mãe e chorar de medo de qualquer coisa. Exatamente como fazia aos cinco anos de idade e acordava com pesadelos.

ARTIGO IV

Toda mulher em dias de TPM tem direito a recusar ligações de clientes insuportáveis; a chorar na frente do chefe, caso seja repreendida; a manter-se muda durante as reuniões; podendo, em casos mais graves, até receber o dia de folga. Sem que isso interfira no seu futuro profissional.

ARTIGO V

Toda mulher em dias de TPM tem direito a dizer que está gorda; que está cheia de fios brancos; que o cabelo está um desastre; que sua pele está um lixo; que suas celulites de multiplicaram como Gremlins. Desde que NINGUÉM concorde com ela.

ARTIGO VI

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de se abster da obrigação de dizer "bom dia", "bom tarde", "boa noite", “por favor”, “com licença”, sem ser taxada de grosseira e mal-educada.

ARTIGO VII

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de esquecer: esquecer o aniversário de um parente, esquecer de pagar uma conta, esquecer de ir ao dentista, esquecer de enviar um orçamento, e outras coisas que agora esqueci (estou no meu direito).

ARTIGO VIII

Toda mulher em dias de TPM tem direito a estourar o limite do cartão de crédito comprando sapatos que não fazem seu estilo, roupas que só usaria se fosse convidada para uma festa brega, bolsas que custam uma fortuna, embora não acomodem nem um celular. E que nada disso conste na fatura do mês seguinte.

ARTIGO IX

Toda mulher em dias de TPM tem direito a reclamar com o namorado de qualquer coisa da qual já tenha reclamado um milhão de vezes; a chorar por causa dele; a chorar no telefone com ele; a não atender as ligações dele; e até a terminar com ele. Desde que, passado o período, ele finja que nada disso aconteceu.

ARTIGO X

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de fazer com a sua TPM o que bem entender: um dramalhão mexicano, uma tragédia grega, uma comédia pastelão, uma crônica, que seja. Desde que isso lhe renda elogios, para que não fique traumatizada e inibida de escrever para todo o sempre.

Fernanda Pinho
 

sábado, 2 de abril de 2011

Nos Bailes da Vida - Roupa Nova





Música do álbum (Ouro de Minas, 2001).






quinta-feira, 31 de março de 2011

Quem desvendará meu interior...




"Quem desvendará meu interior para consertar meus defeitos?”

 Caio Fernando Abreu


terça-feira, 29 de março de 2011

Se as portas da percepção estivessem limpas...




"Se as portas da percepção estivessem limpas,

tudo apareceria para o homem tal como é: infinito."


William Blake


sábado, 26 de março de 2011

quinta-feira, 24 de março de 2011

Mundo Pequeno



 I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.
III
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. "Sonora voz de uma concha",
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares

conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam
cigarras." Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: "Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.
IV
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.

Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.
V
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

Manoel de Barros,  "O Livro das Ignorãças" - ed. Civilização Brasileira.

terça-feira, 22 de março de 2011

Segredo



A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
Carlos Drummond de Andrade