quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Há uma primavera em cada vida...


"Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder... para me encontrar..." 
Florbela Espanca


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Doze dezembros




Chega dezembro e as festas pululam de todo canto. Tem festa de fim de ano da firma. Amigo oculto da turma da faculdade. A ceia com a família. O jantar beneficente. Os convites chegam em atacado. Provavelmente muito mais do que se estivéssemos, por exemplo, em maio. A impressão que tenho é a de que apenas em dezembro - quando existe a expectativa do fim e também do recomeço - é que temos consciência da finitude da vida. Aquela sensação de "já é natal de novo?" nos cutuca e nos faz cair na real sobre como o tempo está escapando pelas nossas mãos. Muito provavelmente não é por isso, mas acho que é um bom motivo para justificar a grande farra que vira dezembro. Outro dia alguém comentou no Twitter que a impressão que se tem é a de que o que vai acabar não é o ano, mas, sim, o mundo. E é bem isso mesmo. Gastamos o que não podemos. Anuciamos para aqueles que amamos o quanto eles nos são caros. Fazemos festas todos os dias. Mandamos toda e qualquer dieta para as cucuias. Afinal de contas, é tempo de aproveitar. Por que? Porque o ano vai acabar, oras! Mas logo vem outro ano, e, sabe-se lá porquê, entramos no modo monotonia outra vez. Economizando, sabe-se lá porquê. Camuflando nossos sentimentos, sabe-se lá porquê. Ficando em casa, sabe-se lá porquê. Deixando de apreciar comidas, engordativas sim, mas antes de tudo maravilhosas, sabe-se lá porquê. Enfim, sobrevivemos onze meses para viver em dezembro. A sexta-feira dos meses. Sabe o que eu quero para 2012? Doze dezembros e nada mais.
Fernanda Pinho 


sábado, 10 de dezembro de 2011

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

... o diagnóstico e a terapêutica.




........O diagnóstico e a terapêutica.

O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um
reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos,
despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos
febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes. O
amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por
descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode
impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de
alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e
ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção
capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis
beberagens com garantia e tudo...
(Excerto de Diagnóstico do Amor in O Livro dos Abraços de Eduardo Galeano)


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ai, quem me dera


Ai, quem me dera terminasse a espera 
Retornasse o canto simples e sem fim 
E ouvindo o canto se chorasse tanto 
Que do mundo o pranto se estancasse enfim
Ai, quem me dera ver morrrer a fera 
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor 
Ai, quem me dera uma manhã feliz 
Ai, quem me dera uma estação de amor
Ah, se as pessoas se tornassem boas 
E cantassem loas e tivessem paz 
E pelas ruas se abraçassem nuas 
E duas a duas fossem casais
Ai, quem me dera ao som de madrigais 
Ver todo mundo para sempre afim 
E a liberdade nunca ser demais 
E não haver mais solidão ruim
Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais 
Dizer que a vida vai ser sempre assim 
E, finda a espera, ouvir na primavera 
Alguém chamar por mim.
Vinícius de Moraes

sábado, 3 de dezembro de 2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

No Coração, talvez



            No coração, talvez, ou diga antes:  
            Uma ferida rasgada de navalha,  
            Por onde vai a vida, tão mal gasta.  
            Na total consciência nos retalha.  
            O desejar, o querer, o não bastar,  
            Enganada procura da razão  
            Que o acaso de sermos justifique,  
            Eis o que dói, talvez no coração. 
            José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"