terça-feira, 6 de março de 2012

Busque Amor novas artes, novo engenho



Busque Amor novas artes, novo engenho, 
para matar-me, e novas esquivanças; 
que não pode tirar-me as esperanças,
 
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
 
Vede que perigosas seguranças!
 
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
 
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
 
um não sei quê, que nasce não sei onde,
 
vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luís Vaz de Camões 



sábado, 3 de março de 2012

quinta-feira, 1 de março de 2012

A arte de ser feliz


        Houve um tempo em que minha janela se abria
          sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
          Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
          Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
          e o jardim parecia morto.
          Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
          e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as          

          plantas.
          Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o      

          jardim não morresse.
          E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que

          caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. 
          Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
          Outras vezes encontro nuvens espessas.
          Avisto crianças que vão para a escola.
          Pardais que pulam pelo muro.
          Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
          Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
          Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
          Às vezes, um galo canta.
          Às vezes, um avião passa.
          Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
          E eu me sinto completamente feliz.
          Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
          que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não 

          existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
          finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. 

      
        Cecília Meireles



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Não sei quantas almas tenho

          Não sei quantas almas tenho.
          Cada momento mudei.
          Continuamente me estranho.
          Nunca me vi nem acabei.
          De tanto ser, só tenho alma.
          Quem tem alma não tem calma.
          Quem vê é só o que vê,
          Quem sente não é quem é,
          Atento ao que sou e vejo,
          Torno-me eles e não eu.
          Cada meu sonho ou desejo
          É do que nasce e não meu.
          Sou minha própria paisagem;
          Assisto à minha passagem,
          Diverso, móbil e só,
          Não sei sentir-me onde estou.
          Por isso, alheio, vou lendo
          Como páginas, meu ser.
          O que segue não prevendo,
          O que passou a esquecer.
          Noto à margem do que li
          O que julguei que senti.
          Releio e digo : “Fui eu ?”
          Deus sabe, porque o escreveu.

 
        Fernando Pessoa

sábado, 25 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A mão



Guerra e Paz - Exposição no Memorial da América Latina em São Paulo.

Entre o cafezal e o sonho

o garoto pinta uma estrela dourada

na parede da capela,  
e nada mais resiste à mão pintora.  
A mão cresce e pinta  
o que não é para ser pintado mas sofrido.  
A mão está sempre compondo  
módul-murmurando  
o que escapou à fadiga da Criação  
e revê ensaios de formas  
e corrige o oblíquo pelo aéreo  
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos  
A mão cresce mais e faz  
do mundo-como-se-repete o mundo que  telequeremos.  
A mão sabe a cor da cor  
e com ela veste o nu e o invisível.  
Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor  
Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja mágica  
não para aplacar a sede dos companheiros,   
principalmente para aguçá-la  
até o limite do sentimento da terra domícilio do homem.  
Entre o sonho e o cafezal  
entre guerra e paz  
entre mártires, ofendidos,   
músicos, jangadas, pandorgas,  
entre os roceiros mecanizados de Israel,  
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil  
entre o amor e o ofício  
eis que a mão decide:  
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,  
sejam vertiginosamente felizes   
como feliz é o retrato  
múltiplo verde-róseo em duas gerações  
da criança que balança como flor no cosmo   
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente   
em seu poder de encantação.  
Agora há uma verdade sem angústia  
mesmo no estar-angustiado.   
O que era dor é flor, conhecimento    
plástico do mundo.  
E por assim haver disposto o essencial,  
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,  
bruscamente se cala    
e voa para nunca-mais  
a mão infinita   
a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari.
Candido Portinari, por Carlos Drummond de Andrade. 


sábado, 18 de fevereiro de 2012