quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Eu cantarei de amor tão docemente



          Eu cantarei de amor tão docemente,
          Por uns termos em si tão concertados,
          Que dois mil acidentes namorados 
          Faça sentir ao peito que não sente. 

          Farei que amor a todos avivente, 
          Pintando mil segredos delicados, 
          Brandas iras, suspiros magoados, 
          Temerosa ousadia e pena ausente. 

          Também, Senhora, do desprezo honesto 
          De vossa vista branda e rigorosa, 
          Contentar-me-ei dizendo a menor parte. 

          Porém, para cantar de vosso gesto 
          A composição alta e milagrosa 
          Aqui falta saber, engenho e arte.

          Luís de Camões



terça-feira, 27 de setembro de 2011

Cada novo amigo que ganhamos...






"Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida 

aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, 

mas pelo que nos revela de nós mesmos."

Miguel de Unamuno




sábado, 24 de setembro de 2011

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

É preciso não esquecer nada




É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a ideia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos severos conosco,
pois o resto não nos pertence.
Cecília Meireles

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Gaúcho



Gaúcho é filho do pago
Que ama e zela esta terra
Fronteira, missões e serra,
Campanha e litoral,
Recantos do mesmo ideal,
Onde se vê o céu azul,
Os rios, a mata, a flechilha,
Mas tudo é chão farroupilha
Tudo é Rio Grande do Sul.

Gaúcho não é ser grosso
Ter botas, esporas e mango
Usar lenço chimango,
Atado frouxo ao pescoço,
E andar fazendo alvoroço,
Comprando qualquer parada,
Gaúcho é ser idealista,
Peleiar só por conquista
Em defesa da terra amada.

Gaúcho é nome e herança,
Que os bravos heróis nos legaram,
Que muito mal empregaram
Não compreendendo por certo
Gaúcho é altivo, esperto,
Espontâneo, inteligente,
Respeitador bom amigo,
Mas quando encontra o perigo,
Costuma chegar de frente.

Quem foi Bento Gonçalves?
Quem foi David Canabarro?
Não foram estátuas de barro,
Nem pobres leigos sem eira
Quem foi Pinto Bandeira?
Eu nesses versos lhe digo,
Com altivez e estoicismo,
Foram a nata do gauchismo,
Do nosso Rio Grande amigo.

Ruben Sofildo da Silva

sábado, 17 de setembro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Uma alegria para sempre


As coisas que não conseguem ser
olvidadas continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo do sempre onde as
datas não datam. Só no mundo do nunca
existem lápides… Que importa se –
depois de tudo – tenha "ela" partido,
casado, mudado, sumido, esquecido,
enganado, ou que quer que te haja
feito, em suma? Tiveste uma parte da
sua vida que foi só tua e, esta, ela
jamais a poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte da tua vida presente
e não do teu passado. E abrem-se no teu
sorriso mesmo quando, deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto
deves à ingrata criatura…
A thing of beauty is a joy for ever
disse, há cento e muitos anos, um poeta
inglês que não conseguiu morrer.

(”Uma alegria para sempre”. Mario Quintana,
In: Baú de Espantos, 1986)

A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.

(Primeiros versos do famoso poema de John Keats,
1795-1821, poeta inglês)

A beleza em cada ser é uma alegria eterna:
o seu encanto torna-se maior e nunca se há-de perder
no nada; reservar-nos-á ainda um refúgio
de paz, onde adormeceremos, habitados por sonhos
suaves, uma íntima plenitude, uma respiração branda.

(Tradução de Fernando Guimarães.
In: Poesia Romântica Inglesa, Relógio D’Água, 1992)