sábado, 16 de agosto de 2008

Crônica da loucura - Luis Fernando Veríssimo

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou. Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas.
Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses. Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu.
Senão, vejamos: Na última quarta-feira, estávamos: (1) eu, (2) um crioulinho muito bem vestido, (3) um senhor de uns cinqüenta anos e (4) uma velha gorda. Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles.
Não foi difícil, porque eu já partia do princípio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados. (2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam ou conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.
(3 ) E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.
(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse. Acabou o meu tempo.
Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera. Ele ri, ri muito, o meu psicanalista e diz: "(2 ) O Ditinho é o nosso office-boy. (3) O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades. 4) E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe. E (1) você, não vai ter alta tão cedo..."

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Há um tempo...


Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.
(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Realidade surreal

Ela era vista como uma louca esquizofrênica aos olhos dos normais. Ela enxergava a sua própria realidade, e era isso que a fazia tão real quanto os demais. Ela gostava de flutuar nas nuvens aconchegantes de algodão-doce levemente coloridas com um toque de giz de cera de cores espetaculares, feitos cautelosamente por abelhas com nariz vermelho de palhaço. Sempre quando adormecia em cima das tão deliciosas nuvens, acordava aos berros de sua mãe mandando ela descer imediatamente de cima do seu novo guarda-roupa de marfim, e que caso contrário, ela iria cair e se machucar feio. Ela acordava assustada e ofegante, não conseguia entender como a sua mãe tinha tanto medo de que ela se machucasse, mesmo estando tão protegida por belos dentes-de-leão tão macios quanto amaciante com cheiro de lavanda.

"- Estou bem, mamãe. As minhas amigas formigas me levam cuidadosamente para o solo térreo sã e salva. Não se preocupe. Por acaso, você não quer observar o pôr-dos-girassóis ao meu lado?"

Ela sempre pedia isso à sua mãe, era um sonho de infância que nunca fora realizado. E a cada tentativa de convencer a sua mãe a subir em suas tão doces, fofas e inofensivas nuvens para admirar aquelas luzes reluzentes que mais pareciam lindos e coloridos fogos de artifício - mas claro, feitos impecavelmente pela mãe natureza; e não por toxinas fedorentas - ela só ganhava uma mãe cabisbaixa e melancólica.

Sua teoria, era que sua mãe deveria ter algum trauma de infância assistindo a dança das luzes fogosas e reluzentes dos fabulosos e maravilhosos girassóis. Por causa disso, não insistia tanto - para a felicidade de sua mãe -.

Sua mãe sempre dizia a ela que o mundo em que ela vivia, era um mundo inventado, um mundo de faz-de-conta. E que ela deveria voltar a realidade imediatamente. No entanto, a garota esquizofrênica só conseguia pensar nos raios coloridos, nas margaridas cantantes e no rio de suco de amora. Ela era muito feliz em seu mundo irreal, e estava sempre satisfeita com a doce vida em que vivia. Se ela era feliz, sorridente, cheia de amigos e de alegria constante, porque raios ela deveria voltar para a realidade cinzenta, poluída e barulhenta a qual ela pertencia? ou melhor, não pertencia.

Apenas por que a sociedade faz de todos uns robôs idênticos, manipulados e alienados pela mídia escrota a qual seguimos? Por que ser diferente é ser um louco no mundo real? Ela era superior à todas essas balelas asquerosas. Ela era esperta e realmente muito sortuda. Vivia calmamente e sorridente em suas *supostas* utopias hereditárias. E quer saber do que mais? Ela é o que ela nasceu, e é assim que ela pretende ir levando e rumando a sua *falsa* e extraordinária vida.

(por Eduarda Metzker)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

ES - PE - RAN - ÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se

E

— ó delicioso vôo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança…

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

(Mário Quintana)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

(Lya Luft)


sábado, 2 de agosto de 2008

A arte é uma flor...


"A arte é uma flor nascida
no caminho da nossa vida,
e que se desenvolve para suavizá-la."
(Arthur Schopenhauer)


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo que não se diz mais: meu Deus
Tempo de absoluta depuração
Tempo em que não se diz mais: meu amor
Porque o amor resultou inútil
E os olhos não choram
E as mãos tecem apenas o rude trabalho
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandescem enormes
És todo certeza, já não sabes sofrer
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança:
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer
Chegou um tempo em que não adianta morrer
Chegou o tempo em que a vida é uma ordem
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade)