O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou. Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. sábado, 16 de agosto de 2008
Crônica da loucura - Luis Fernando Veríssimo
O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou. Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Há um tempo...
abandonar as roupas usadas,
e esquecer os nossos caminhos,
É o tempo da travessia:
teremos ficado, para sempre,
(Fernando Pessoa)
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Realidade surreal
Ela era vista como uma louca esquizofrênica aos olhos dos normais. Ela enxergava a sua própria realidade, e era isso que a fazia tão real quanto os demais. Ela gostava de flutuar nas nuvens aconchegantes de algodão-doce levemente coloridas com um toque de giz de cera de cores espetaculares, feitos cautelosamente por abelhas com nariz vermelho de palhaço. Sempre quando adormecia em cima das tão deliciosas nuvens, acordava aos berros de sua mãe mandando ela descer imediatamente de cima do seu novo guarda-roupa de marfim, e que caso contrário, ela iria cair e se machucar feio. Ela acordava assustada e ofegante, não conseguia entender como a sua mãe tinha tanto medo de que ela se machucasse, mesmo estando tão protegida por belos dentes-de-leão tão macios quanto amaciante com cheiro de lavanda.
"- Estou bem, mamãe. As minhas amigas formigas me levam cuidadosamente para o solo térreo sã e salva. Não se preocupe. Por acaso, você não quer observar o pôr-dos-girassóis ao meu lado?"
Ela sempre pedia isso à sua mãe, era um sonho de infância que nunca fora realizado. E a cada tentativa de convencer a sua mãe a subir em suas tão doces, fofas e inofensivas nuvens para admirar aquelas luzes reluzentes que mais pareciam lindos e coloridos fogos de artifício - mas claro, feitos impecavelmente pela mãe natureza; e não por toxinas fedorentas - ela só ganhava uma mãe cabisbaixa e melancólica.
Sua teoria, era que sua mãe deveria ter algum trauma de infância assistindo a dança das luzes fogosas e reluzentes dos fabulosos e maravilhosos girassóis. Por causa disso, não insistia tanto - para a felicidade de sua mãe -.
Sua mãe sempre dizia a ela que o mundo em que ela vivia, era um mundo inventado, um mundo de faz-de-conta. E que ela deveria voltar a realidade imediatamente. No entanto, a garota esquizofrênica só conseguia pensar nos raios coloridos, nas margaridas cantantes e no rio de suco de amora. Ela era muito feliz em seu mundo irreal, e estava sempre satisfeita com a doce vida em que vivia. Se ela era feliz, sorridente, cheia de amigos e de alegria constante, porque raios ela deveria voltar para a realidade cinzenta, poluída e barulhenta a qual ela pertencia? ou melhor, não pertencia.
Apenas por que a sociedade faz de todos uns robôs idênticos, manipulados e alienados pela mídia escrota a qual seguimos? Por que ser diferente é ser um louco no mundo real? Ela era superior à todas essas balelas asquerosas. Ela era esperta e realmente muito sortuda. Vivia calmamente e sorridente em suas *supostas* utopias hereditárias. E quer saber do que mais? Ela é o que ela nasceu, e é assim que ela pretende ir levando e rumando a sua *falsa* e extraordinária vida.
(por Eduarda Metzker)
terça-feira, 5 de agosto de 2008
ES - PE - RAN - ÇA
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
(Mário Quintana)
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Convite
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.
(Lya Luft)
sábado, 2 de agosto de 2008
A arte é uma flor...
no caminho da nossa vida,
(Arthur Schopenhauer)
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo que não se diz mais: meu Deus
Tempo de absoluta depuração
Tempo em que não se diz mais: meu amor
Porque o amor resultou inútil
E os olhos não choram
E as mãos tecem apenas o rude trabalho
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandescem enormes
És todo certeza, já não sabes sofrer
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança:
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer
Chegou um tempo em que não adianta morrer
Chegou o tempo em que a vida é uma ordem
A vida apenas, sem mistificação.(Carlos Drummond de Andrade)



