quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ser feliz


Ser feliz é maravilhoso
É como ter um balão dentro de ti
e o balão está cheio de ar quente
tu ficas leve e quase a voar.
Às vezes sentes-te feliz
juntamente com os outros.
Quando estiveste longe
e houve alguém que esteve a tua espera
ou quando uma pessoa diz um segredo
que só nós sabemos.
Quando sentado quieto junto de outra pessoa
compreendes como ambos são amigos.
És feliz
quando consegues finalmente fazer alguma coisa
que devias fazer mas não ousavas.
Às vezes podes ser feliz
quando estás só.
Quando a Primavera chega de repente
e tu navegas no primeiro barco à vela do ano
ou quando caem os primeiros flocos de neve do Inverno
e tocam docemente a tua cara molhada.
Quando começas a pensar em alguém
que gosta de ti
ou quando um amigo defende
o que tu disseste ou fizeste.
Mas ficarás mais feliz do que nunca
quando tornares feliz outra pessoa.

Quando visitares alguém que está sozinho
e tiveres tempo para ficar lá muito tempo
ou fizeres alguma coisa por alguém
que foi duramente magoado.

Então o balão sobe
redondo de alegria
e voa até tocar as mãos de Deus.

Leif Kristiansson - Tradução de Sophia de Mello Breyner

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Tem que ser agora

Vamos supor que deva ser agora
enquanto é tempo e o tempo subsista...
Vamos supor que esse seja o tempo
que a hora passe e o dia não resista!

Vamos supor que as luzes da cidade
apaguem na avenida da memória...
Não sei o que será desse amanhã,
vamos supor que deva ser agora...

Suponhamos que o rio altere o curso
de seu destino inevitável de correr,
e a flor não venha mais a sublimar-se
no seu inexorável destino de nascer...

Vamos supor que a espera seja tanta
que o tempo não se lembre de passar.
Que a noite durma tanto nas calçadas
que a alvorada não consiga despertar...

É necessário então que seja agora
Como o dia que chega embora tarde,
suponhamos ao menos que este seja
o instante inicial da eternidade!

A. Estebanez

sábado, 11 de setembro de 2010

Não vemos as coisas...


"Não vemos as coisas como são, mas como somos."

Anaïs Nin



quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A criança que fui chora na estrada


I

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

Fernando Pessoa

sábado, 28 de agosto de 2010

A invisível ramagem de um poema


Na tarde calma, ondula
A INVISÍVEL RAMAGEM DE UM POEMA.
Uma secreta brisa,
Que apenas se adivinha,
Percorre o mundo íntimo das coisas
E acorda em sobressalto
As folhas do silêncio.
Falta ainda o poeta...
Mas a evidência
Da sua voz
É como a luz do sol quando amanhece:
De tão branca, parece
Que descora a ilusão da madrugada...
Antes ele não viesse,
E em cada solidão se mantivesse
Esta bruma de música sonhada.
Miguel Torga

sábado, 21 de agosto de 2010

Faça tudo sempre...

"Faça tudo sempre com dedicação e amor
tendo em mente que você não deve nunca
provar nada para ninguém."
Autor desconhecido

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Poema natural

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor,
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e eu cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo,
parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva,
desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

Adalgisa Nery