
"Nada é imutável, tudo flui,estamos em constante
movimentação."
Heráclito

Penso às vezes nos sonhos, nos amores,Que inflamei à distância pelo espaço;Penso nas ilusões do meu regaçoLevadas pelo vento a alheias dores...
Penso na multidão dos sofredores,Que uma bênção tiveram do meu braço:Talvez algum repouso ao seu cansaço,Talvez ao seu deserto algumas flores...
Penso neste milagre dos meus versos:Um pouco de modéstia aos mais felizes,Um pouco de bondade aos mais perversos...
Olavo Bilac

Encontraste-me um dia no caminhoEm procura de quê, nem eu o sei.-Bom dia, companheiro, te saudei,Que a jornada é maior indo sozinho.
É longe, é muito longe, há muito espinho!Paraste a repousar, eu descansei...Na venda em que poisaste, onde poisei,Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitáro,Corta os pés como a rocha dum calvário,E queima como a areia!... Foi no entanto
Que choramos a dor de cada um...E o vinho em que choraste era comum:Tivemos que beber do mesmo pranto.
Camilo Pessanha

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os marese une as terras mais distantes…
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…
e um dia me acabarei.Cecília Meireles
Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um Deus que dorme.Fernando Pessoa

Conheço se há moscas no leite,
Conheço o tédio e o deleite,
Conheço a fartura e a fome,
Conheço pela chama o azeite,
Conheço tudo, menos a mim.
Conheço o gibão pela gola,
Conheço o rico pelo anel,
Conheço o fiel pela sacola,
Conheço a monja pelo véu,
Conheço o porco pela tripa,
Conheço o irmão pelo latim,
Conheço o vinho pela pipa,
Conheço tudo, menos a mim.
Conheço a mula e o cavalo,
Conheço o carro e a carreta,
Conheço a galinha e o galo,
Conheço o sino e a sineta,
Conheço a flor pelo talo
Conheço Abel e Caim,
Conheço o pote e o gargalo,
Conheço tudo, menos a mim.
François Villon traduzido por Ferreira Gullar