terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O melhor de tudo, Natal...


“O melhor de tudo, Natal quer dizer um espírito de amor,
um tempo quando o amor de Deus e o amor dos seres humanos
deveriam prevalecer acima de todo o ódio e amargura, um tempo
em que nossos pensamentos, ações, e o espírito de nossas
vidas manifestam a presença de Deus.”

Feliz Natal a todos!


Christmas Tree Emoticon Pictures, Images and Photos


sábado, 19 de dezembro de 2009

A arte de um povo...



"A arte de um povo é um
reflexo autêntico de sua mentalidade."
Nehru

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Às vezes...


"Às vezes escrever uma só linha basta
para salvar o próprio coração."

Clarice Lispector in Um Sopro de Vida

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Que bicho eu sou?

assorted animals Pictures, Images and Photos


"Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos.
Só por não poderem ser chatos como os outros?"


Mário Quintana

Chego atrasado à reunião. Entro, a passos constrangidos, na sala. Estão reunidos num grande círculo. Meu atraso é obviamente percebido. A contragosto, cumprimento todos, com um vago bom-dia, e me sento. Então falam de quê? Um sujeito, barba e cabelos grisalhos, compara-se a um macaco. Antes que eu possa ordenar as ideias, os olhos da reunião voltam-se ameaçadoramente pra mim, perguntando que bicho eu sou.

Não achei muito elegante a pergunta. Isso lá é coisa que se pergunte assim, à primeira vista, a um honrado desconhecido? Balbuciei defesas, e a moça, que se proclamou facilitadora, não facilitou muito as coisas:

— Todos nós temos um animal oculto. Com qual você se identifica?

Pego de surpresa, não quis me comprometer. Disparei cachorro, bicho neutro, sem conexões freudianas perigosas (acho), nem lá nem cá, nem rei da selva nem fresco que nem o tamanduá.

Escolhas feitas, a facilitadora, conhecedora dos mistérios da alma humana, completou:

— Agora vem a parte mais importante. Cada um de vocês vai estar representando, aqui na frente, o animal escolhido.

Ai... Arrependimento. Nunca lati, nem nas mais secretas fantasias sexuais. E latido é coisa séria porque, se sair fraco, desafinado, compromete a honra do cidadão honesto. Tem que ser um latidão, forte e decidido. Sinceramente, eu não estava com vontade de latir, quanto mais em público. Ai, meu Deus, por que não escolhi o bicho-preguiça, tão simpático, tão na dele, alheio ao mal-estar mundial?

Eu quis mudar, mas a dona não deixou. Disse que isso ia ao encontro das regras. Pensei em ponderar que então não haveria problema, mas desisti.

Fiz uma piada, dizendo que era um cão mudo, mas ninguém riu. A situação piorou visivelmente. Latir depois de uma piada fracassada é suprema humilhação. Pensei em simular um desmaio, mas, naquela altura, ficaria falso, acho.

Entre o latido e o desmaio, fiquei com o primeiro, e lati sem convicção. Qualquer vira-lata de bom coração, se me visse naquela ocasião, haveria de se solidarizar comigo, com meu latido vagabundo.

Voltei, com o rabo entre as pernas, pra cadeira, feito cão sem dono.

Minha vida de cão triste não demorou muito, pois a facilitadora atacou:

— Agora vocês vão estar me dizendo o que passou pela cabeça de vocês. Só assim descobrimos o verdadeiro eu.

Ela, tão engraçada, quis começar comigo, a facilitadora do inferno. Ah!, me esquece... Vai procurar javali, vai namorar elefante, que diabo! Essas coisas, eu só pensei. Disse, na verdade, outra. Falei que foi uma experiência única. Que coisa espantosa!, exclamei. Me conectei com camadas submersas do ser. Ao latir, senti aflorar meu lado selvagem, deixei vir à tona capas de agressividade reprimidas no disfarce do dia-a-dia. Porque a sociedade...

Ah, os olhos dela brilharam de satisfação:

— Sim, sim, é isso mesmo, é isso aí!

Ah, sou outro, reconheço. Obrigado, obrigado. Que Deus guarde, em bom lugar, as facilitadoras, facilitando-lhes o caminho. Para bem longe, quem sabe...

Felipe B. Netto

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Não sei dançar


Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria…
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.
Sim, já perdi, pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.
Mistura muito excelente de chás…
Esta foi açafata…
- Não foi arrumadeira.
E está dançando com o ex-prefeito municipal.
Tão Brasil!
De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil…
Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugelê banzai!
A filha do usineio de Campos
Olha com repugnância
Para a crioula imoral.
No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros…
Mas ela não sabe…
Tão Brasil!
Ninguém se lembra de política…
Nem dos oito mil quilômetros de costa…
O algodão do Seridó é o melhor do mundo?…Que me importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos,
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!

Manuel Bandeira


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Não me peçam razões


Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Se eu fosse um padre


Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,
não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições…
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma…
e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!

Mário Quintana

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Carpe Diem


…Carpe Diem, aproveita o dia.
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco,
sem teres sido um pouco mais feliz,
sem teres alimentado os teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que nada tire o direito de
te expressares que é quase um dever.
Não abandones o anseio de fazer da tua vida
algo extraordinário…
Não deixes de crer que as palavras, o riso e a poesia
podem mudar o mundo…
Somos seres, humanos, cheios de paixão.
A vida é deserto e também oásis.
Aniquila-nos, lastima-nos, converte-nos em
protagonistas da nossa própria história…
Mas não deixes nunca de sonhar,
porque só através dos sonhos
pode ser livre o homem.
Não caias no pior erro, o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso.
Não te resignes…
Não atraiçoes as tuas crenças. Todos necessitamos
de aceitação, mas não podemos remar
contra nós mesmos.
Isso transforma a vida num inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter
a vida pela frente…

Vive-a intensamente, sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro e em
enfrentar a tua tarefa com orgulho, impulso
e sem medo.
Aprende de quem pode ensinar-te…
Não permitas que a vida te passe por cima
sem que a vivas…
Walt Whitman

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Conta-me


Conta-me como foi
que os nossos olhos se olharam ofuscados
pelas luzes que nos iluminou o corpo
Conta-me como se fez um chão
enorme entre nós na noite no silêncio do corpo
Conta-me como aquele chão fundo
mesmo debaixo do solo
nos acolheu com pequenos espaços
em ruínas e de repente uma luz
um brilho no olhar um sorriso no ar
um beijo nos lábios
onde nasceu uma palavra fresca
com a pureza do dia
em que morremos um no outro
Conta-me as palavras
que sempre me disseste
ainda antes de nos conhecermos
Conta-me como o dizias
quando as palavras eram de silêncio
como mudas no meio dos gestos
que trocámos e sentimos
Conta-me mas encosta a tua cabeça
na minha mão e toca-me
com a tua respiração
sente o calor mas conta-me
Conta-me tudo como se
ainda não tivesses
contado nada...

Autor desconhecido

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O vôo


Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indague se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite,
enche-o de estrelas...
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta.
Canta, canta...
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um vôo,
no tempo, rumo ao céu?
Que importa a rota!
Voa e canta enquanto resistirem as asas...
Menotti del Picchia

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Não precisamos...


"Não precisamos saber nem "como" nem "onde", mas existe uma pergunta
que todos nós devemos fazer sempre que começamos qualquer coisa:
"Para que tenho que fazer isto?"

"Nós sempre temos tendência de ver coisas que não existem,
e ficar cegos para as grandes lições que estão diante de nossos olhos."
Paulo Coelho

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Contudo


Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.

Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com
que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

5° motivo da rosa


Antes do teu olhar, não era,
nem será depois, - primavera.
Pois vivemos do que perdura,

não do que fomos. Desse acaso
do que foi visto e amado: - o prazo
do Criador na criatura...

Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva, e resume
o resto, que as horas consomem.

Mas não chores, que no meu dia
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.

Cecília Meireles

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O resto é segredo


"Ela se pinta para esconder o rosto, seus olhos são águas profundas.
Gueixas não tem desejos. Gueixas não tem sentimentos.
A gueixa é uma artista de um mundo imaginário.
Ela dança. Ela canta. Ela o entretém.
O resto é escuridão. O resto é segredo."
Extraído do livro
Memórias de uma Gueixa

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama


Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama;
que o meu coração seja igual a ti, poente!
descobre em mim o eterno, o que arde, o que ama,
…e o vento do esquecimento arraste o que é doente!
Juan Ramón Jiménez

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Se seus sonhos...


Se seus sonhos são pequenos, sua visão será pequena, suas metas serão limitadas, seus alvos serão diminutos, sua estrada será estreita, sua capacidade de suportar as tormentas será frágil. Os sonhos regam a existência com sentido. Se seus sonhos são frágeis, sua comida não terá sabor, suas primaveras não terão flores, suas manhãs não terão orvalho, sua emoção não terá romances. A presença dos sonhos transforma os miseráveis em reis, faz dos idosos, jovens, e a ausência deles transforma milionários em mendigos, faz dos jovens idosos. Os sonhos trazem saúde para a emoção, equipam o frágil para ser autor da sua história, fazem os tímidos terem golpes de ousadia e os derrotados serem construtores de oportunidades.

Augusto Cury

sábado, 24 de outubro de 2009

Quem manda ser romântica?

Essa é em defesa dos românticos:

Se você ainda chora ou pelo menos se comove com certas canções, se você ainda olha, com carinho, para coisas obsoletas como a lua cheia, se você, ao conhecer certos locais incríveis, ainda pensa que irá lá um dia com seu amor, sinto muito, mas eu devo avisar: você está no século errado.

Século errado?! É, século errado. Peça o seu de volta, acho que se enganaram. Você é romântica, isso não se faz mais. Ninguém entende, é como falar chinês no Mineirão, vão olhar para você com perplexidade, talvez com pena.

Os séculos, minha amiga, mudam de ideia, mudam de roupa. O romantismo é uma roupa que não cabe mais. Fica apertada, a perna aparece, ou então fica lamentavelmente larga, grande, excessiva. Aliás, faz tempo que é assim. Lamartine Babo, compositor que trouxe a música brasileira de volta ao caminho da simplicidade, era um romântico incorrigível. Depois de receber cartas inteligentes e bem escritas de uma jovem de Boa Esperança chamada Vera, tomou um ônibus para ir conhecê-la, embora ela tenha dito que o encontro pessoal não seria possível. Chegando na cidade, ninguém quis dizer nada sobre a identidade da garota, embora todos rissem misteriosamente ao desconversar. Disposto a desvendar o segredo, Lamartine se dispôs a conversar com a menos sedutora das moças presentes. Ela, então, revelou-lhe o segredo: a inteligente autora das cartas, por quem Lamartine estava apaixonado, era o irmão dela, professor de Latim.

Pior: toda a cidade sabia do caso, e se divertia às custas dele. O tal professor chegava a ler em público, no clube da cidade, as respostas enternecidas de Lamartine. Nem por isso o genial compositor perdeu o bom humor, censurando-se apenas: "Bem feito, Lamartine! Quem mandou ser romântico?"

O melhor é ser duro, seco, impassível. Nem faça cara feia, leitora, a culpa não é minha, é do século. Faça como aquele colunista sentimental do jornal. Conhece a história? Foi assim. Uma mulher, desesperada porque encontrou o marido com outra, escreveu para a coluna sentimental do jornal. O problema é que a coluna era escrita por um homem. Ela escreveu dizendo: "Pelo amor de Deus, me ajude! Estava indo para o trabalho quando meu carro, sem nenhum motivo, deixou de funcionar. Peguei um táxi e voltei para casa. Encontrei, perplexa, meu marido na nossa cama com uma aluna dele, de vinte anos. Por favor, me ajude!"

Resposta do colunista: "Deve ter sido falta de combustível ou a injeção eletrônica. Procure um mecânico."

Felipe P. Braga Netto

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Um dia


Foi num tempo em que era dádiva
ganhar mais um dia de vida.
E em todo final de noite
resignado se despedia,
mas nem assim desistia.

Na frieza das paredes rudes,
no vazio das pessoas paredes,
na parede das pessoas frias
conseguia sentir seu toque.

Um leve halo, emoção, o cativava,
e o arrastava até o seguinte,
com seu consequente dia-a-dia.

E assim ia,
apesar das paredes.

Homilia
de gente rude, sem rosto,
mas nem assim desistia.

André Calazans

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Desejos vãos


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a Árvore tosca e tensa
Que ri do mundo vão e até da morte!
Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

Florbela Espanca

sábado, 17 de outubro de 2009

Os maravilhosos domingos de Constantina

Todo domingo tem feira de artesanato e chorinho na Praça São Salvador.
É muito colorido e alegre. Nunca para Constantina que cultiva críticas ao belo como se fosse um vaso de espinho raro.
Caipirinhas com frutas exóticas, crianças correndo aos berros, velhos jogando dama nas mesas de granito, pula-pula, pipoca, fotografias antigas, livros raros, bolsas bordadas e tudo o mais muito caprichado.
Com toda essa felicidade latente, Constantina sai de seus aposentos, também todo domingo, só para implicar. Sem um centavo se quer na bolsa, pergunta preço só para reclamar que está caríssimo para camelô que nem paga imposto. Estranha um objeto, ao saber se tratar de uma luminária diz ser a coisa mais feia que vira em sua longa vida. Abre caminho entre as pessoas à bengaladas resmungando que ninguém mais respeita idoso. Manda o chorinho tocar Ataulfo Alves e não aquela porcaria. Xinga as crianças de mal-educadas porque os pais ficam enchendo a cara em vez de domar aqueles monstrinhos. Abana fumante fingindo falta de ar, vê bolor em empada fresca e mosca em água-de-coco. Feita a rota oficial do mau-humor, escolhe sua vítima solitária. De preferência que esteja com um sorriso idiota na cara.
Começa falando do tempo. Muito calor. Dorme mal. Se a vítima reagir observando que o céu está lindo é porque vai chover. Ilustra com a constatação de que, com esse tempo maluco, morre muita gente de gripe de porco, de galinha, de gente e até de mosquito. Sem contar que a violência está aí. Ontem mesmo mataram um menino com um tiro na testa. O mundo está perdido. E não adianta disfarçar com essa gente toda na praça e nenhum carro de polícia. A qualquer momento vem uma bala perdida e puf, acabou. Se eu fosse você não ficava com esse celular dando mole. Aqui é muito perigoso. Hoje em dia está todo mundo assim, doente. E por falar nisso, rapaz, você parece meio abatido. Já vai? É isso mesmo, vá para casa que é mais seguro e tome um copo de leite quentinho.
Triunfante, Constantina olha para o céu e comenta entre os dentes: Eu falei... vai chover, e muito!

Texto e arte: Catarina Cunha

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Verdade inventada

Mulher com chapéu lendo, 2007
Salvador Perez Bassols (Espanha 1948)

Não quero ter a terrível limitação de quem vive

apenas do que é passível de fazer sentido.

Eu não: quero uma verdade inventada.

Clarice Lispector

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma

flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém

soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,

rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…

Pablo Neruda

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Remorso


Às vezes uma dor me desespera…
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera…
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Olavo Bilac

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Canção do amor sereno


Vem sem receio: eu te recebo

Como um dom dos deuses do deserto

Que decretaram minha trégua, e permitiram

Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,

Que meus dedos não te prendam

Mas contornem teu raro perfil

Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite

E conforto, porto de partida para a fundação

Do teu reino, em que a sombra

Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve

Como se dançasse numa praia uma menina.

Lya Luft

sábado, 3 de outubro de 2009

Rio 2016

http://www.youtube.com/watch?v=oJPPdLYvMHQ

Will in Rio...

- Apoio à candidatura Rio 2016 -


A vida revela-se ao mundo...


"A vida revela-se ao mundo como uma alegria.
Há alegria no jogo eternamente variado dos seus matizes,
na música das suas vozes,
na dança dos seus movimentos.
A morte não pode ser verdade enquanto não desaparecer
a alegria do coração do ser humano."


(Rabindranath Tagore)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Olhando o mar


Sempre que fito o mar
tenho a ilusão de achar-me diante
de um silêncio amplo, ondulante,
de um silêncio profundo,
onde vozes lutassem por gritar,
por lhe fugirem do invisível fundo.


Diante do mar eu fico triste,
nessa mudez de quem assiste
reproduções do próprio dissabor;
diante do mar eu sou um mar,
a outro de apor
e a se indeterminar.


O mar é sempre monotonia,
na calmaria
ou na tempestade.
Fujo de ti, ó mar que estrondas!
porque a tristeza que me invade
tem a continuidade
das tuas ondas...


Mas te amo, ó mar, porque minha alma e a tua
são bem iguais: ambas profundamente
sensíveis, e amplas, e espelhantes;
nelas o ambiente
atua
apenas superficialmente...


Calma de cismas, de êxtases, de sonhos,
desesperos medonhos,
ânsias de azul, de alturas...
- Longos ou rápidos instantes
em que me transfiguro, em que te transfiguras...
Nos nossos sentimentos sem represa,
nas nossas almas, quanta afinidade!
- Tu sentindo por toda a natureza!
- Eu sentindo por toda a humanidade!


Nos dias muito azuis, o meu olhar,
atento,
a descer e a se elevar,
supõe o mar um espreguiçamento
do céu e o céu um êxtase do mar.


Há nos ritmos da água
marinha uma poesia, a mais completa,
essa poesia universal da mágoa.


O mar é um cérebro em laboração,
um cérebro de poeta;
nas suas ondas, vêm e vão
pensamentos, de roldão.


O mar,
imperturbavelmente, a rolar, a rolar...
O mar... - Concluo sempre que metido
em sua profundeza e em sua vastidão:
- o mar é o corpo, é a objetivação
do espaço, do infinito.


Gilka Machado

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O verbo no infinito

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...

Vinícius de Moraes

sábado, 26 de setembro de 2009

A vida eterna

Manoel foi pro céu. O que o surpreendeu muito. Era Ateu, descrente total, a última coisa que esperava era descobrir que há vida depois da morte. Mas morreu e quando abriu os olhos se viu numa sala de espera cheia de gente, com uma senha na mão, esperando para ser chamado para uma entrevista. Não havia um grande portão dourado, como vira em mais de uma representação da entrada do céu, e aparentemente São Pedro não era mais o porteiro. Fora substituído por recepcionistas com computadores que faziam a triagem dos recém-chegados. Mas o resto era igual ao que as pessoas imaginavam: nuvens, todo mundo de camisola, música de harpa...

O número da sua senha era enorme e Manoel deduziu que mantinham uma numeração corrida, desde o primeiro morto. Mas só chamavam pelos três últimos algarismos. Enquanto não chamavam seu número, Manoel puxou conversa com o homem sentado ao seu lado. Que felizmente também era um morto brasileiro. Se apresentou:

- Manoel. Enfarte.

- Bira. Tiro.

- Você esperava isto aqui?

E Manoel fez um gesto que englobava toda a vida eterna.

- Pra dizer a verdade – disse Bira – pensei que eu fosse direto para o inferno.

- Acho que elas é que decidem pra onde a gente vai – disse Manoel, indicando as recepcionistas com a cabeça.

E, com efeito, quando voltou da sua entrevista com a recepcionista e cruzou com o Manoel, que fora chamado, Bira anunciou:

- Me deram uma chance. Purgatório. Duzentos anos.

- Parabéns!

A recepcionista era simpática. Digitou o nome de Manoel no computador e quando a sua ficha apareceu, exclamou:

- Ah, Brasil! Português?

- Português.

E o Português dela era perfeito. Fez várias perguntas para confirmar os dados sobre Manoel que tinha no computador. Sempre sorrindo. Mas o sorriso desapareceu de repente. Foi substituído por uma expressão de desapontamento.

- Ai, ai, ai... – disse a recepcionista.

- O que foi?

- Aqui onde diz “Religião” está: “nenhuma.”

- Pois é...

- O senhor não tem nenhuma religião? Pode ser qualquer uma. Nós encaminhamos para o céu correspondente. Ou, se o senhor preferir, reencarnação...

- Não, não...

- Então, sinto muito. Sua ficha é ótima, mas... Manoel a interrompeu:

- Não tem céu só para Ateu não?

Não existia um céu só para Ateus. Nem para agnósticos.
Também não eram permitidas conversões “pós-mortem.” E deixá-lo entrar no céu, numa eternidade em que nunca acreditara, o senhor Manoel teria que concordar, não seria justo para com os que sempre acreditaram. Infelizmente, ela tinha que...

- Espere! – disse Manoel, dando um tapa na testa. – Me lembrei agora. Eu sou Univitalista.

- O quê?

- Univitalista. É uma religião nova. Talvez por isso não esteja no computador.

- Em que vocês acreditam?

- Numa porção de coisas que eu não me lembro agora, mas a vida eterna é uma delas. Isso eu garanto. Pelo menos foi o que me disseram quando eu me inscrevi .

A recepcionista não parecia muito convencida mas pegou um livreto que mantinha ao lado do computador e foi direto na letra U. Não encontrou nenhuma religião com aquele nome.

- Ela é novíssima – explicou Manoel. – Ainda estava em teste.

A recepcionista sacudiu a cabeça mas disse que iria consultar o seu chefe.
Manoel deveria voltar ao seu lugar e esperar a decisão do chefe.
E Manoel voltou para o seu lugar, e desta vez o homem sentado ao seu lado é que puxou conversa. Abriu os braços e disse:

- Você acredita nisto?

- Eu...- começou a dizer Manoel, mas o outro não o deixou falar.

- É tudo encenação. É tudo truque. Eles tentam nos pegar até o último minuto.

- Por favor. Eu...

- Olha aí.

O homem tinha se levantado e chutado as nuvens que cobriam o chão da sala de espera.
Mas o Manoel saltou sobre o homem, cobriu sua cabeça com a camisola, atirou-o no chão e sentou-se em cima dele. Para ele ficar quieto e não estragar tudo afinal, mesmo que fosse só propaganda, era a vida eterna.


Luis Fernando Veríssimo

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

É mais além

A casa parece deserta, mas não está. Desde que nela habita, as paredes vem colecionando seus segredos. É certo que, vez ou outra, ele tenta despistar a atenção dessas sinuosas invasoras de privacidade. Mas não demora e ele desiste e se entrega ao gosto de contar a elas seus recentes devaneios, a voz embargada, o soluço, a gargalhada. Uma delinquência emocional.

Tem horror ao liquidificador. Não é apenas o barulho que o endoidece, mas principalmente a ideia de se triturar tudo para nunca mais se ter o inteiro. Ele sabe o que é ser despedaçado, da dolência de ter de catar os cacos de si e depois passar muito tempo a montar esse quebra-cabeça. E nem sempre se sente inteiro.

Ele adora o silêncio sendo invadido pelas canções, principalmente as que fazem de conta que dizem isso, mas dizem é aquilo, o que dá no isso mesmo. Aprecia a jornada que é a descoberta do gosto de uma canção. Para ele é necessário saboreá-la, a tarde vazando do tempo, a luz adormecendo sobre as costas da noite. Quando ninguém mais tem o que dizer e todos adormecem de cansaço ou libação — ou porque as histórias que seus pais contam os embalam até chegarem a esse mundo onde todos andam de olhos fechados e bocejam —, então ele sente: a vida tatuando na sua língua o gosto, invadindo sua alma com gosto, permitindo a ele, novamente, gostar.

Ao observá-lo de longe, poucos alcançam a inquietação que se acomoda em sua alma, até porque ela parece ter alma própria que vive à sombra desse homem que, às vezes, rodopia, gira e gira, cai no mesmo lugar achando que mudou de país. E quando percebe isso, e apesar da tristeza, do desapontamento, ele dá o primeiro passo adiante, reinicia a viagem. Corteja o destino e seus véus de futuro inusitado.

Tenho comigo que ele aprendeu a tirar esperança da cartola... Que até faz bolhas de sabão com elas. Que surrupiou das gargalhadas das crianças a graça que vê nas coisas nem sempre assim tão graciosas, fortalecendo a leveza da pessoa que foi, que é, que há de ser.

Numa das suas conversas com as paredes, descobriu que precisava ver a rua, como quando jogava futebol com a molecada lá do bairro, ou ficava girando e girando, os olhos fechados... Sabe os desenhos em que o personagem fica girando por um tempo no mesmo lugar e acaba abrindo um buraco no chão e sumindo? Ele não... Ele parecia criar asas, um menino saindo do chão, chegando tão longe, tocando o sol, o ser, o céu, as lantejoulas dependuradas no universo.

A casa não está deserta. As fronhas dos travesseiros abarcam lágrimas de noites em que não sabia como ou quando. Onde? Mas são apenas moradias para momentos em que se flerta com abismos. E ainda bem que existe a máquina de lavar que faz com que fronhas chorosas se transformem em acomodação para os perfumes de amaciantes de roupa. Alguns são bem agradáveis... E a gente acaba sonhando com levezas.

Já na rua, o homem vai brincar de menino, de ter ousadias que adulto bloqueia, porque sim, porque acha que é isso que gente grande faz. Lembra dos rodopios e os olhos fechados? Soubéssemos o que ele vê... Mas nem às paredes esse segredo o moço conta, apesar da insistência desvairada das tais. Porém é fato: ele enxerga muito mais do que aqueles que, vista boa, olhos grudados na vitrine da vida, jamais enxergarão. Quem não sabe que o olhar depende da cadência da alma?

Sair para ver o mundo é jeito bom de restabelecer contato com a vida que também é vivida com os outros. Ele gosta de andar de bicicleta, enquanto visita suas lembranças e bota reparo nos próprios sentimentos. As paredes de sua casa endoidecem de curiosidade: “O que será que ele não nos contou?”

O céu, as ruas, as praças, os labirintos urbanos são testemunhas dos passeios do moço. Posso apostar que, como observadora que não faz questão de lógica ou de corroborar fatos, que ele se enche de amansamento quando pedala sua bicicleta alugada, como divindades o visitassem nesse momento, sussurrando em seu ouvido os mistérios da sua própria humanidade. E o homem resgata o menino, sem medo, sem tempo, os olhos fechados de tocar o céu, o seu, o meu desejo de enxergar além.

O olhar liberto das amarras. O coração aberto.


Carla Dias

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Há uma música do povo


Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…
E ouço-a embalado e sozinho…
É isso mesmo que eu quis…
Perdi a fé e o caminho…
Quem não fui é que é feliz.
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!


Fernando Pessoa

sábado, 19 de setembro de 2009

Todos os dias devíamos...


"Todos os dias devíamos ouvir
um pouco de música,
ler uma boa poesia,
ver um quadro bonito e,
se possível, dizer algumas
palavras sensatas."


Goethe

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Se tivesse acreditado...


“Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer
verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando,
falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei
da sinceridade da plateia que sorria.”

*

"Um dia sem rir é um dia desperdiçado."

Charles Chaplin


terça-feira, 15 de setembro de 2009

No mistério do Sem-Fim


No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles

sábado, 12 de setembro de 2009

A décima oitava

Ela tem, delegado, um nariz arrebitado, mas isso não é nada. Nariz arrebitado a gente resiste. Mas a ponta do nariz se mexe quando ela fala.
Isso quem resiste? Eu não. Nunca pude resistir à mulher que quando fala a ponta do nariz sobe e desce. Muita gente nem nota. É preciso prestar atenção. É preciso ser um obsessivo como eu. O nariz mexe milímetros. Para quem não está vidrado, não há movimento algum, às vezes só se nota de determinada posição, quando a mulher está de perfil. Você vê a pontinha do nariz se mexendo, meu Deus! Subindo e descendo. No caso dela também se via de frente. Uma vez ela reclamou, “você sempre olha para a minha boca quando eu falo”. Não era a boca, era o nariz. Eu ficava vidrado no nariz, Nunca disse pra ela que era o nariz. Delegado, eu sou louco? Ela ia dizer que era mentira, que seu nariz não mexia. Era até capaz de arranjar um jeito de o nariz não mexer mais.

Mas a culpa, delegado, é da inconstância humana. Ninguém é uma coisa só. Nós todos somos muitos. E o pior é que de um lado da gente não se deduz o outro, não é mesmo? Você, o senhor, acreditaria que um homem sensível como eu, um homem que chora quando o Brasil ganha bronze, delegado, bronze? Que se emocionava com as penugens nas coxas dela? Que agora mesmo não pode pensar na ponta do nariz dela se mexendo que fica arrepiado? Que eu seria capaz de atirar um dicionário na cabeça dela? E um Aurelião completo, capa dura, não a edição condensada, mas atirei. Porque ela também se revelou. Ela era ela e era outras. A multiplicidade humana, é isso. A tragédia é essa. Dois nunca são dois, são 17 de cada lado. E quando você pensa que conhece todos, aparece o décimo oitavo. Como eu poderia adivinhar, vendo a ponta do narizinho dela subindo e descendo, que um dia ela me faria atirar o Aurelião completo na cabeça dela? Capa dura e tudo? Eu, um homem sensível?

Eu devia ter desconfiado de alguma coisa quando descobri que o celular dela tocava Wagner. Quem escolhe Wagner para o seu telefone celular? Pode-se saber muita coisa sobre uma pessoa pelo que ela escolhe para tocar quando soa o seu celular. Eu achei engraçado o Wagner, ela um doce de mulher escolhendo o Wagner. Mas na hora não dei maior importância. Hoje sei que Wagner era um sinal. Um dos outros, das outras, que ela tinha por dentro, escolheu o Wagner. Foi uma maneira de dizer que o nariz arrebitado não era tudo, que eu não me enganasse com o seu jeitinho de falar, como apelido que ela me deu, “Guinguinha”, veja o senhor, “Guinguinha”, só depois eu descobri que era o nome de um cachorro que ela teve quando era pequena e morreu atropelado, “Guinguinha”. Que uma que ela tinha por dentro era uma Valquíria indomável de 2 metros. Hein? Fagner, não. Wagner. O alemão.

Tudo bem, eu também tenho outros por dentro. Nós estávamos juntos um tempão quando ela descobriu que eu sabia imitar o Sílvio Santos. Sou um bom imitador, o meu Romário também é bom, faço um Lima Duarte passável, mas ninguém sabe, é um lado meu que ninguém conhece. Ela ficou boba, disse: “Eu não sabia que você era artista”. Ela também não sabia que eu tenho pânico de berinjela. Não é só não gostar, é pânico mesmo, na primeira vez que ela serviu beringela eu saí correndo da mesa, ela atrás gritando: “Guinguinha, o que foi?”

Também sou um obsessivo, reconheço. A obsessão foi a causa de nossa briga final. Tenho outros por dentro que nem eu entendo, minha teoria é que a gente nasce com várias possibilidades e quando uma predomina, as outras ficam lá dentro, como alternativas descartadas, definhando em segredo. E, vez por outra, querendo aparecer. Tudo bem, viver juntos é ir descobrindo o que cada um tem por dentro, os 17 outros de cada um, e aprendendo a viver com eles. A gente se adapta. Um dos meus 17 pode não combinar com um dos 17 dela, então a gente cuida para eles nunca se encontrarem. A felicidade é sempre uma acomodação. Eu estava disposto a conviver com ela e suas 17 outras, a desculpar tudo delegado, porque a ponta do seu nariz mexe quando ela fala.

Mas aí surgiu a décima oitava ela. Nós estávamos discutindo as minhas obsessões. Ela estava se queixando das minhas obsessões. Não sei como, a discussão derivou para a semântica, eu disse que “obsedante” e “obsecante” eram a mesma coisa, ela disse que não, eu disse que as duas palavras eram quase iguais e ela disse “Rará”, depois disse que obcecante era com “c” depois do “b”, eu disse que não, que também era com “s”, fomos consultar o dicionário e ela estava certa, e aí ela deu outra risada mais debochada e eu não me aguentei e o Aurelião voou. Sim, atirei o Aurelião de capa dura na cabeça dela.

A gente aguenta tudo, não é delegado, menos elas quererem saber mais do que a gente.
Arrogância intelectual não.


Luis Fernando Veríssimo

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Saber viver


Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar

Cora Coralina

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Recordo ainda


Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…


Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…


Estrada afora após segui… Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai!…
Que envelheceu, um dia, de repente!…

Mário Quintana

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Amiga dos ventos

Sou amiga dos ventos
Sou amante dos mares
Sou bem-vinda nos lugares
Aonde vou

Sou a força da terra
Sou a luz dos luares
Sou a chama nos altares
Do amor

Não que algo aconteça
De especial comigo
Que eu possua mil poderes
Celestiais
Nem que eu seja dotada
De um saber feiticeiro
Protegida dos potentados
Astrais

O que eu trago é mais simples
É banal como a chuva
Natural como uma uva
Ter sabor
Vem da vida o mistério
Dessa facilidade
De ser tudo e nada disso
Ter valor

Gilberto Gil

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio


Chamo -Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço -Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.
Peço -Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.

E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen


sábado, 29 de agosto de 2009

Há no mundo uma linguagem...


"Há no mundo uma linguagem que

todos compreendem:

é a linguagem do entusiasmo,

das coisas feitas com amor e com vontade,
em procurar aquilo que se deseja ou no que se crê."

Paulo Coelho

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Dois quadros


Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.
De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.

A grama no campo não nasce, não cresce:
Outrora este campo tão verde e tão rico,
Agora é tão quente que até nos parece
Um forno queimando madeira de angico.

Na copa redonda de algum juazeiro
A aguda cigarra seu canto desata
E a linda araponga que chamam Ferreiro,
Martela o seu ferro por dentro da mata.

O dia desponta mostrando-se ingrato,
Um manto de cinza por cima da serra
E o sol do Nordeste nos mostra o retrato
De um bolo de sangue nascendo da terra.

Porém, quando chove, tudo é riso e festa,
O campo e a floresta prometem fartura,
Escutam-se as notas agudas e graves
Do canto das aves louvando a natura.

Alegre esvoaça e gargalha o jacu,
Apita o nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre as verduras,
Beijando os primores do meu Cariri.

De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vagalumes.
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes.

Se o dia desponta, que doce harmonia!
A gente aprecia o mais belo compasso.
Além do balido das mansas ovelhas,
Enxames de abelhas zumbindo no espaço.

E o forte caboclo da sua palhoça,
No rumo da roça, de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo, contente,
Lançar a semente na terra molhada.

Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel, prazenteiro, modesto e feliz,
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso de nosso país.

Patativa do Assaré

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Toledo


Diluído numa taça de oiro a arder
Toledo é um rubi. E hoje é só nosso!
O sol a rir... Vivalma... Não esboço
Um gesto que me não sinta esvaecer...

As tuas mãos tacteiam-me a tremer...
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!

Cerro um pouco o olhar onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo,
- Um grande amor é sempre grave e triste.

Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo...
Uma torre ergue ao céu um grito agudo...
Tua boca desfolha-me num beijo...


Florbela Espanca

sábado, 22 de agosto de 2009

Aprimorar a paciência...


Aprimorar a paciência requer alguém

que nos faça mal e nos permita

praticar a tolerância.

(Dalai Lama)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Metade


Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer;
Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.

Oswaldo Montenegro

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Teus olhos entristecem

Teus olhos entristecem.
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.

Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.
Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.
Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.
Fernando Pessoa

sábado, 15 de agosto de 2009

A repartição dos pães

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.

Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos. Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a benção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...

Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.

Não havia holocausto: tudo aquilo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.

Clarice Lispector in "Felicidade Clandestina"